O Bilhete que Ela Nunca Leu
- Rafael Fernandes
- há 7 dias
- 2 min de leitura
Era uma tarde de agosto quando Dona Marta encontrou, entre as páginas amareladas de um livro esquecido, um bilhete escrito pela mão trêmula de seu marido. Jorge havia partido três anos antes, levado por uma doença que consumiu seu corpo mas jamais apagou o brilho dos seus olhos. O bilhete dizia apenas: "Quando você encontrar isto, saiba que estou sorrindo de onde estiver, porque você finalmente voltou a ler."
Marta deixou o livro cair. As lágrimas vieram antes que pudesse impedi-las. Depois que Jorge se foi, ela não conseguia mais abrir um livro. As palavras a lembravam dele — da voz grave que lia em voz alta todas as noites, do cheiro de café que ele sempre trazia junto com uma história nova. Ler se tornou sinônimo de dor.
Mas naquela tarde, sem saber por quê, Marta sentiu vontade de tocar nas páginas. Talvez fosse a solidão, talvez fosse saudade. Pegou o primeiro livro que viu na estante — justamente aquele que Jorge havia lhe dado de presente no último Natal juntos. E ali estava o bilhete, esperando por ela como uma promessa silenciosa.
Nos meses seguintes, Marta voltou a frequentar a biblioteca do bairro. Começou um clube de leitura para viúvas e viúvos que, como ela, haviam perdido o gosto pelas palavras. No primeiro encontro, eram cinco pessoas. Em seis meses, eram quarenta. Cada um carregava sua dor, mas ali, entre capítulos e cafés, descobriram que a leitura era capaz de costurar o que a perda havia rasgado.
Quando perguntavam a Marta o que a inspirou a recomeçar, ela sorria, apertava o bilhete dobrado no bolso do casaco e dizia: "Foi ele. Mesmo de longe, foi ele quem me trouxe de volta."


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