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O Café que Ninguém Pediu

  • Foto do escritor: Rafael Fernandes
    Rafael Fernandes
  • 2 de abr.
  • 2 min de leitura

Dona Marta tinha setenta e dois anos e um café pequeno na esquina da Rua das Flores, em Belo Horizonte. Não era um café bonito — as paredes descascavam, as cadeiras rangiam, e o letreiro de madeira já quase não se lia. Mas ali, toda manhã, às seis em ponto, ela acendia o fogão e coava o primeiro café do dia. Um café que ela não vendia. Deixava na janela, numa caneca de alumínio, para quem passasse e precisasse.


Ninguém sabia quando aquilo tinha começado. Talvez quando o marido morreu e ela percebeu que o silêncio de uma casa vazia doía mais do que qualquer luto. Talvez quando viu um rapaz dormindo na calçada num inverno que não perdoava. Ela nunca explicou. Apenas fazia. Uma caneca na janela, todo dia, sem falta.


Seu Augusto foi o primeiro a parar ali com frequência. Era pedreiro, acordava antes do sol, e aquele café quente no meio do frio da madrugada era o único carinho que recebia no dia. Depois veio a Cláudia, mãe solo de três filhos, que passava correndo para o ponto de ônibus e nunca tinha tempo de tomar café em casa. Depois o Jorge, o carteiro aposentado que não tinha mais motivo para sair de casa — mas inventou um, graças àquela caneca.


Com o tempo, a janela de Dona Marta virou uma roda de conversa. As pessoas chegavam pelo café e ficavam pela companhia. Alguém trouxe biscoitos. Outro trouxe uma toalha de mesa. Uma vizinha começou a ajudar com a louça. Sem que ninguém planejasse, aquela esquina virou o coração do bairro — um lugar onde solidão não entrava.


Quando Dona Marta adoeceu e precisou ser internada, a janela ficou fechada por três dias. No quarto dia, Seu Augusto apareceu com seu próprio café, coado do jeito que aprendeu observando ela. Colocou a caneca na janela e esperou. A Cláudia apareceu, sorriu com os olhos marejados e disse: "Ela ia gostar de ver isso." Naquela mesma semana, Dona Marta voltou para casa. Quando abriu a porta e viu a janela cheia de flores, canecas e um bilhete que dizia "A senhora nunca tomou café sozinha — e nunca vai", chorou pela primeira vez em anos. Mas dessa vez, de alegria.

 
 
 

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