No dia do casamento na praia, Mariana perdeu a alianca. Uma onda mais forte, um gesto, e o anel de ouro escorregou do dedo e sumiu na areia molhada. O casal procurou por horas, de joelhos, peneirando a areia com as maos. Nada. O mar tinha levado o simbolo do primeiro dia da vida a dois.
Foi um comeco triste, e Mariana guardou aquilo como um mau presságio. O marido, Joel, mandou fazer outra alianca, mas ela nunca esqueceu a primeira — aquela que tinha a data e a frase gravadas por dentro.
Os anos passaram. Tiveram filhos, brigas, reconciliacoes, uma vida inteira de casados. Vinte anos depois, voltaram aquela mesma praia para comemorar as bodas. Sentaram-se na areia, no mesmo ponto, rindo da lembranca do anel perdido.
Foi quando um pescador se aproximou, intrigado com o casal que ria sozinho. Ouviu a historia e ficou pensativo. — Esperem aqui — disse. Voltou pouco depois com uma pequena caixa. Dentro, varios objetos que ele tinha encontrado dentro de peixes ao longo dos anos: anzois, pedacos de rede, e um anel de ouro, escurecido pelo tempo.
Mariana pegou o anel com as maos tremulas. Limpou a parte de dentro. La estava a data. La estava a frase. Era a alianca. A mesma. Perdida ha vinte anos no mar, engolida por um peixe, fisgada pelo acaso, guardada por um pescador que nunca soube de quem era.
Ninguem soube explicar como aquilo foi possivel. As correntes, os peixes, o tempo, a coincidencia de voltarem no mesmo dia. Mariana parou de chamar de mau presságio. Passou a chamar de milagre. — O mar levou no dia em que a gente comecou — disse ela, colocando de novo o anel no dedo. — E devolveu pra dizer que a gente conseguiu. Que valeu a pena ficar.