Quando o pequeno Davi nasceu, com quase quatro meses de antecedencia, cabia na palma da mao do pai. Pesava pouco mais que um pacote de acucar. Os medicos foram honestos com os pais, Bianca e Rodrigo: as chances eram pequenas. Um bebe tao prematuro enfrentava uma batalha que muitos nao venciam.
Davi foi para a incubadora, ligado a aparelhos maiores que ele. Bianca nao podia nem pega-lo no colo nos primeiros dias. So podia encostar um dedo na mãozinha minuscula atraves de uma abertura. E foi o que ela fez, todos os dias, horas a fio: encostava o dedo e falava com o filho. — Aguenta, meu pequeno. A mamae ta aqui. Voce e mais forte do que parece.
As semanas foram uma montanha-russa. Davi melhorava, piorava, voltava. Cada dia era uma vitoria arrancada a forca. Os pais quase nao saiam do hospital. A enfermagem se afeicoou aquele lutador minusculo que se recusava a desistir.
Os medicos introduziram o "metodo canguru": colocavam Davi, pele com pele, no peito da mae e do pai, para que sentisse o calor e o batimento do coracao deles. E algo aconteceu. A cada contato, o bebe respirava melhor, ganhava forca, estabilizava. Era como se o amor, literalmente, o mantivesse vivo.
Foram meses. Mas, contra muitas previsoes, Davi cresceu. Saiu da incubadora. Mamou. Engordou. Chorou bem alto — o choro mais lindo que aqueles pais ja ouviram. No dia da alta, a equipe inteira do hospital se reuniu para aplaudir o pequeno guerreiro que tinha entrado cabendo numa mao e saia nos bracos, gordinho e corado.
Hoje Davi e um menino sapeca, que corre, fala sem parar e nao tem ideia da batalha que travou antes mesmo de saber respirar direito.
Os medicos registram nos prontuarios os termos tecnicos. Mas Bianca tem a propria explicacao, que repete sempre que olha o filho brincando: — Diz que foi a medicina. Diz que foi a forca dele. Eu acho que foi tudo isso junto com uma coisa que nao cabe em prontuario nenhum. Foi um milagre que coube na palma da minha mao.