coragem

A Última Rota do Geraldo

Meu marido morreu numa segunda-feira e na sexta o banco ligou sobre o caminhão. Eu nunca havia dirigido uma carreta na vida. Mas a dívida era real, o Geraldo estava morto, e eu tinha cinquenta e oito anos e nenhuma intenção de perder o único bem que nos restava.

Por Relatos Humanos
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A Última Rota do Geraldo

A chave do Geraldo estava no gancho da cozinha, onde ela sempre ficava quando ele estava em casa. Chave grande, grossa, com um chaveirinho de couro que ele havia comprado numa feira em Uberlândia, anos atrás. Eu a olhei durante quatro dias antes de tirar do gancho.

No quinto dia, tirei.

Meu marido, Geraldo Mendes, havia morrido de infarto numa segunda-feira, no km 374 da BR-153, perto de Anápolis. O ajudante dele, o Renatinho — vinte e três anos, magrinho, que às vezes jantava lá em casa quando a rota passava pela cidade — parou o caminhão no acostamento, chamou o samu e ficou com ele até o fim. Me ligou ele mesmo, com a voz travada, e disse que o Geraldo não havia sofrido. Não sei se era verdade ou se era bondade. Guardei como bondade.

O caminhão era um Volvo FH 460, do ano de 2018, vermelho, que o Geraldo havia chamado de "o Senhor" porque dizia que era difícil como patrão e que recompensava quando você obedecia. Nas viagens longas, ele ligava pra mim pelo mãos-livres e falava sobre o que via pela janela: um rio fora do leito, uma feira de beira de estrada, um pôr do sol em Minas que ele dizia que eu precisava ver um dia. Tínhamos mais quarenta e dois mil reais de financiamento. Sem as rotas, sem ele, o banco não esperaria.

Na sexta-feira, quatro dias depois do enterro, o gerente ligou para perguntar sobre a parcela de julho. Eu pus o telefone na mesa e fiquei olhando para a janela.

Meu cunhado achou que eu estava ficando louca quando disse o que pretendia fazer.

"Maria Lúcia, você nunca encostou nesse caminhão na vida."

"Eu sei."

"Uma carreta de vinte e dois metros."

"Eu sei o tamanho, Valter. Fui casada com o homem vinte e nove anos."

Ele abriu a boca, fechou, abriu de novo. A expressão dele era a de quem quer dizer uma coisa sensata mas percebe que não há nenhuma. Então disse: "Deixa eu ir com você."

"Não. Você tem família, você tem seu serviço. Eu faço."

O que não disse para o Valter é que eu havia passado três noites sem dormir pesquisando no YouTube. Assistindo vídeo de mulher caminhoneira, vídeo de como engrenar marcha dupla, vídeo de como fazer a curva larga, como frear em descida, como calcular o vão na ultrapassagem. Anotei num caderno de capa preta que achei na gaveta do Geraldo. Reli quatro vezes. Não é que eu pensasse que um caderno de anotações me tornaria capaz de dirigir uma carreta. É que eu precisava fazer alguma coisa com as mãos que não fosse chorar.

No sábado de manhã cedo, fui até o pátio onde o Renatinho havia deixado o caminhão. Ele estava me esperando, encostado no guard-rail, tomando café numa garrafinha. Quando me viu descer do carro, jogou o café no chão e veio.

"Dona Maria Lúcia", ele disse, sem mais. Me abraçou como se eu fosse a mãe dele. Talvez fosse um pouco, naquele momento.

Subir na cabine foi mais difícil do que eu esperava. Eram três degraus altos e eu, com meus cinquenta e oito anos e o joelho que já não prestava por conta de uma queda de escada em 2019, tive que me agarrar no corrimão com os dois braços e içar o corpo para dentro. Mas subi.

O banco cheirava ao Geraldo. É a única forma que tenho de descrever. Aquele cheiro de couro quente e o desodorante dele, o mesmo há vinte e nove anos, de barra azul. Fiquei parada um minuto com as mãos no volante grande, olhando para o para-brisa e para o horizonte lá na frente, e pensei: ele ficava aqui todos os dias. Via o Brasil inteiro passar por esse vidro. Era daqui que ele me ligava para falar do rio e da feira e do pôr do sol em Minas.

O Renatinho me ensinou durante duas horas naquele pátio. Engrenar, soltar freio de mão, virar, ré. A marcha dupla eu não peguei no primeiro dia — ele disse que era normal, que até homem de vinte anos demora. Bati o espelho num poste e o Renatinho disse "normal, todo mundo bate" com uma calma de gente que já viu muito. Fiz a mesma curva onze vezes até ela me obedecer. Quando finalmente saí do pátio em linha reta sem raspar nada, ele bateu palma, sozinho, no meio do estacionamento vazio.

Na terça-feira seguinte, saí para completar a última rota do Geraldo. Era uma carga de piso cerâmico, Goiânia para Campo Grande. Dois dias de viagem.

Na estrada, o primeiro susto veio na descida da Serra de São Domingos. Aprendi que descida longa se faz em marcha reduzida, com o motor segurando o peso. Aprendi em movimento, com o caminhão pesado me empurrando para a frente e as mãos suadas no volante e o Geraldo morto e eu falando baixinho "não agora, não agora" para não sei bem o quê. Para o caminhão, para Deus, para mim mesma.

Mas segurei.

No posto de Chapadão do Sul, parei para abastecer. O frentista me olhou sem entender. Quando desci para usar o banheiro, dois caminhoneiros que estavam na lanchonete me olharam de um jeito que eu conheço bem, das décadas lidando com o mundo lá fora: o olhar de quem pergunta o que uma mulher de cabelo branco e joelho ruim faz descendo sozinha de uma carreta vermelha. Um deles, gordo, de boné vermelho com logo de uma distribuidora de Mato Grosso, veio até mim quando eu voltava do banheiro.

"A senhora sabe que esse negócio não é brincadeira?"

Olhei para ele. Estava cansada demais para ter paciência e cansada demais para ser grossa.

"Sei muito bem", eu disse. "Estou completando a rota do meu marido. Ele morreu semana passada."

O homem ficou em silêncio por uns três segundos. Então tirou o boné. Não sei por que esse gesto me quebrou mais do que qualquer outra coisa havia quebrado naqueles dias, mais do que a ligação do banco, mais do que as condolências dos vizinhos. Um homem gordo tirando o boné de distribuidora na frente de um caminhão vermelho num posto de beira de estrada do Mato Grosso do Sul.

"Quanto falta?", ele perguntou.

"Trezentos e sessenta quilômetros."

Ele olhou para o parceiro, um rapaz magro com tatuagem de ancora no braço esquerdo. O rapaz deu de ombros, como quem diz "é claro, a gente vai".

"A gente vai na sua frente", o gordo disse. "Se precisar de alguma coisa, chama no rádio. Canal 11."

Não tinha rádio. Mas tinha celular. Demos os números ali mesmo, encostados na bomba de combustível.

Chegamos em Campo Grande na quinta-feira de manhã, com o sol entrando pela lateral e a cidade crescendo devagar no horizonte. Eles foram na minha frente os trezentos e sessenta quilômetros, abrindo caminho, freando mais devagar nas subidas para eu não perder o ritmo, piscando os faróis duas vezes quando estava seguro ultrapassar. Nunca aprendi o nome deles durante a viagem. Perguntei só no final, com vergonha de não ter perguntado antes. O gordo disse que chamava Ivanildo, de Rondonópolis. O magro, Ederaldo, de Cuiabá. Eles tinham uma rota própria para fazer ainda, e simplesmente não haviam falado nada sobre isso.

Descarreguei o piso cerâmico no galpão, assinei os papéis, recebi o comprovante. Valor total da nota: vinte e sete mil e oitocentos reais. Suficiente para pagar a parcela do banco, os custos da viagem, e sobrar alguma coisa para o mês.

Liguei para o Valter da cabine do caminhão, no estacionamento do galpão, com o motor ainda quente e o cheiro do Geraldo ainda no banco.

"Fiz a entrega", eu disse.

Ele ficou quieto do outro lado por um tempo. Depois: "E agora, Maria?"

"Agora volto para casa e começo a procurar frete de volta."

Voltei a Goiânia sozinha. Sem o Ivanildo e o Ederaldo na frente, sem o Renatinho do lado, sem o Geraldo no banco. Só eu, o Senhor, e a estrada que ele havia percorrido tantas vezes que devia conhecer cada buraco, cada curva, cada posto de conveniência iluminado na madrugada.

Isso foi há dois anos. Hoje tenho habilitação categoria E, tirada numa autoescola de Goiânia onde a instrutora tinha a minha idade e disse que eu era a melhor aluna que ela havia tido porque eu prestava atenção em cada coisa como se dependesse disso. Já fiz vinte e três rotas. Contratei uma motorista mais jovem para me ajudar nas semanas que o joelho não colabora.

Não virei outra pessoa. Continuo sendo a Maria Lúcia que fazia marmita para o Geraldo toda vez que ele passava pela cidade, que lia revista na varanda às tardes e que ainda coloca o café no fogão às seis e meia mesmo sem ter para quem fazer. Só aprendi que a gente cabe em lugares que nunca imaginou — e que às vezes o que nos salva não é a coragem que sentimos, mas a que fingimos ter até ela aparecer de verdade.

Publicado por Relatos Humanos em . Relatos Humanos — boas histórias para inspirar.

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