Aos cinquenta anos, Dona Marlene foi demitida da fabrica onde trabalhou por mais de duas decadas. "Idade avancada", disseram. Saiu de la com uma caixa de pertences e o coracao apertado. Quem ia contratar uma mulher da idade dela, sem estudo, sem outra experiencia?
Por semanas, distribuiu curriculos e ouviu nao atras de nao. As contas chegavam, o desanimo crescia. Numa tarde, sentada na cozinha, ela olhou para a unica coisa que sempre soube fazer melhor que ninguem: comida caseira, dessas de dar saudade.
Comecou pequeno. Fez vinte quentinhas e foi oferecer na rua das oficinas, onde os trabalhadores almocavam por ali mesmo. Vendeu todas no primeiro dia. No segundo, fez trinta. No terceiro, os homens ja a esperavam. A comida de Dona Marlene tinha tempero de mae, e isso nao se acha em qualquer lugar.
O boca a boca correu. As vinte quentinhas viraram cinquenta, depois cem. Ela acordava as quatro da manha, cozinhava, entregava, lavava as marmitas e recomecava. Era duro. As pernas doiam. Mas, pela primeira vez em muito tempo, ela era dona do proprio futuro.
Um ano depois, alugou um pequeno ponto. Contratou uma ajudante — outra mulher que ninguem mais queria empregar. Depois, mais duas. O cardapio cresceu. A fila na porta tambem.
Hoje, o restaurante de Dona Marlene e ponto certo na cidade. Na parede, ela mandou pintar uma frase: "Aqui ninguem e velho demais para recomecar." Os clientes perguntam o segredo da comida. Ela responde sorrindo: — Tempero de quem nao desistiu.
Quando jovens desempregados a procuram, sem esperanca, ela conta a propria historia e diz: — A vida me fechou uma porta achando que eu tava acabada. Eu so usei a panela pra abrir outra. Olha onde eu cheguei.