Desde pequeno, Tiago gaguejava. Cada palavra era uma batalha, e cada batalha, uma chance de ser ridicularizado. Na escola, os colegas riam quando ele travava numa frase. Os professores, sem paciencia, pediam que outro respondesse. Tiago foi se calando. Achou que o silencio doia menos que a zombaria.
Em casa, o pai dizia: — Filho, nao e a sua boca que tem problema. E o mundo que tem pressa. Fala no seu tempo. Aquelas palavras plantaram uma semente, mas a vergonha era forte, e por anos Tiago evitou falar em publico a qualquer custo.
Na adolescencia, um professor de teatro reparou no garoto calado e o convidou para o grupo da escola. Tiago recusou, claro — falar diante de uma plateia era seu pior pesadelo. Mas o professor insistiu: — A gente nao vence o medo fugindo dele. A gente vence encarando, um pouquinho por dia.
Foi devagar. Exercicios de respiracao, leitura em voz alta, falas curtas no palco. Tiago travava, recomecava, suava frio. Mas, cercado de gente que torcia por ele em vez de rir, algo mudou. Ele descobriu que, declamando, cantando, interpretando, a gagueira quase sumia. A voz que o envergonhava comecou a ganhar forca.
Os anos passaram. Tiago se formou em comunicacao. E aconteceu o impensavel: tornou-se locutor da radio da cidade. O mesmo menino que travava numa frase agora levava a voz para milhares de casas todas as manhas.
Numa entrevista, perguntaram como ele tinha "se curado" da gagueira. Tiago sorriu: — Eu nao me curei. Ate hoje, as vezes, eu travo. A diferenca e que eu parei de ter vergonha disso. Transformei o que me calava no que me faz falar.
Hoje, ele dá palestras em escolas para criancas que gaguejam. Olha nos olhos de cada uma e diz: — A sua voz importa, mesmo quando ela tropeca. Nao deixe ninguem te calar. O mundo tem pressa, mas voce tem o direito de falar no seu tempo.