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As Teclas Que Minha Mão Esqueceu

Após um AVC que paralisou sua mão direita, Dora, professora de piano aposentada, acredita que nunca mais vai tocar. Mas o neto adolescente Caio, teimoso e apaixonado por ela, recusa-se a aceitar isso — e a meta secreta que os une vai além de qualquer nota musical.

Por Relatos Humanos
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As Teclas Que Minha Mão Esqueceu

O piano ficou fechado por quatro meses.

A tampa de mogno escureceu de poeira, e Dora passava por ele toda manhã sem olhar, como se aquilo fosse um móvel qualquer, um aparador, algo que sempre estivera ali e nunca tivera nome. Antes do AVC, ela tocava todo dia antes do café. Era um ritual tão antigo que ela nem lembrava quando tinha começado.

O AVC a pegou numa quinta-feira de setembro, no meio de uma aula com a filha da vizinha. Ela estava mostrando como afundar o pulso numa passagem do Claro de Lua quando a mão direita simplesmente parou de ouvir. Não doeu. Foi pior que isso: a mão ficou ali, sobre as teclas, mas ausente — como se alguém tivesse desligado o fio que ligava o cérebro aos dedos. A menina de oito anos que estava do seu lado perguntou se ela estava bem. Dora disse que sim.

Dezesseis dias de hospital. Dois meses de fisioterapia três vezes por semana. A mão voltou parcialmente: ela conseguia abrir e fechar, pegar um copo, assinar o nome com letra feia. Mas os movimentos finos, os que importavam — aqueles que separavam uma escala bonita de um arranhado, que faziam a diferença entre tocar o Gymnopédie e apenas apertar teclas — esses não voltaram.

Dora tinha setenta e dois anos e entendia perfeitamente o que os médicos não diziam em voz alta.

Caio apareceu numa quinta-feira de janeiro com a mochila nas costas e o cabelo precisando de corte, como sempre. Dezesseis anos, filho da filha mais velha de Dora, e desde criança aquele menino entendia a avó de um jeito que ninguém sabia explicar.

Ele foi direto ao piano.

Levantou a tampa sem pedir licença, passou o dedo pelo teclado de dó a dó, e o apartamento encheu de uma linha de som limpo que Dora não ouvia havia meses. O som vibrou no peito dela de um jeito que a assustou.

"Vó, me ensina."

"Caio, eu não consigo mais—"

"Você me ensina com a esquerda. Eu faço o que a direita faz."

Dora ficou olhando pra ele. O menino era sério, sem drama, com aquela teimosia calma que ele herdara do avô.

"Você não tem ouvido."

"Não tenho. Mas tenho paciência."

Ela riu pela primeira vez em quatro meses. Um riso curto, quase involuntário, mas riu.

Começaram numa tarde de chuva fina, com Dora sentada no banco e Caio numa cadeira de escritório que ele arrastou da sala deixando uma marca no parquet. Ela tocava a melodia com a mão esquerda, devagar, nota por nota, e ele repetia com as duas mãos tentando imitar. Era horrível. O menino não tinha coordenação nenhuma, os dedos escorregavam, ele errava a tecla a cada três notas e fazia uma cara de concentração tão séria que Dora precisava morder o lábio pra não rir de novo.

"Não é assim, é mais pra dentro," ela disse, e sem pensar colocou a mão direita sobre a mão dele pra mostrar o ângulo do pulso.

Os dedos obedeceram mal. Vacilaram. Mas obedeceram.

Ela tirou a mão depressa, como se tivesse encostado em fogo.

Caio não disse nada. Continuou tentando a mesma passagem.

Nas semanas seguintes, Caio aparecia três vezes por semana depois da escola. Trazia salgadinho, tomava o suco que a avó fazia e sentavam ao piano por uma hora. Dora ensinava teoria com a voz e mostrava com a mão esquerda. Ele repetia com obstinação de quem não tem noção de quanto é ruim.

E ali, naquelas tardes que cheiravam a café coado e chuva de verão, sem que nenhum dos dois nomeasse o que estava acontecendo, a mão direita de Dora começou a tentar participar.

Primeiro só o indicador, apoiado levemente numa tecla para marcar o tempo. Depois o médio, junto. A fisioterapeuta tinha dito que movimentos com intenção, com objetivo concreto, ajudavam o cérebro a traçar caminhos novos. Dora não tinha acreditado na época — pareceu conversa de brochura. Agora não pensava nisso. Só pensava em mostrar pro Caio onde colocar o dedo.

Em março, ela tocou uma escala completa com a direita.

Devagar demais, com o dedo anelar travando no fá, mas tocou do começo ao fim.

Caio estava debruçado sobre a partitura e não viu. Ela não disse nada.

Guardou aquilo como se fosse uma semente que ainda precisava de escuro pra germinar.

Havia uma data marcada no calendário daquela família há quase dois anos: vinte e dois de junho, bodas de prata de Tereza e Humberto — a filha mais velha e o genro. Vinte e cinco anos de casados. Uma festa pequena, íntima, num sítio em Jaguariúna, com churrasqueira, mesa de frios e as primas que vinham de longe.

Dora sabia qual música tocar. Sempre soubera.

Quando Tereza e Humberto se casaram, em 2001, Dora tocou o Gymnopédie No. 1 de Erik Satie na entrada da noiva. Era a música favorita de Tereza desde menina, aquela que ela pedia pra mãe tocar quando não conseguia dormir, quando estava com febre, quando estava assustada com alguma coisa que não sabia nomear. Tocar de novo, nas bodas de prata, seria a coisa mais certa do mundo.

O problema era que o Gymnopédie precisava das duas mãos. E precisava de suavidade, de legato, de um controle que a mão direita de Dora ainda não tinha de volta.

Ela começou a treinar escondida, cedo da manhã, antes de Caio chegar. A mão direita errava. Travava. O anelar não obedecia direito, e havia uma sequência no meio da peça que precisava de uma abertura de oitava que ela simplesmente não conseguia mais fazer com fluidez. Tocava o trecho dez vezes, quinze, e na décima sexta saía errado de novo. Ela fechava a tampa com cuidado e ia fazer café e ficava olhando pela janela pra rua lá embaixo.

Numa tarde de abril, Caio chegou mais cedo que o combinado e a encontrou tocando.

Ficou parado na porta da sala.

Dora tirou as mãos do teclado.

"Você tava treinando sem mim."

Não era acusação. Era constatação, dita com aquela seriedade calma dele.

"É o Gymnopédie," ele disse, chegando mais perto. "Eu reconheço. Você tocava isso quando eu era pequeno e eu ficava parado no corredor te ouvindo porque você não queria plateia."

"Eu quero tocar nas bodas da sua mãe," disse Dora. "No dia vinte e dois."

Caio ficou quieto por um momento. Olhou pras mãos dela. Depois olhou pra ela.

"Me mostra onde trava."

Ela mostrou. A abertura de oitava no compasso treze, o anelar que não esticava até o lá.

"E se eu toco essa nota, aqui?" Ele estendeu o dedo indicador e tocou o lá que o anelar dela não alcançava. "Você faz o resto, eu faço esse. Fica do lado, vai junto."

"Não é assim que funciona, Caio."

"Por quê não?"

Ela não soube responder. Porque não era técnico? Porque não estava no método? Cinquenta anos ensinando piano e ela não conseguia argumentar contra aquela pergunta de dezesseis anos.

Eles passaram as seis semanas seguintes ajustando aquela solução estranha e improvisada: Dora com a esquerda fazendo o baixo, a direita fazendo o que conseguia, e Caio sentado do seu lado cobrindo as notas que fugiam do alcance. Ficava torto nos ensaios, às vezes ele entrava meio tempo antes, às vezes atrasava. Mas ficava musical. Ficava com sentimento.

Na última semana antes da festa, numa terça-feira de manhã com sol entrando pela janela da sala, Dora tocou o Gymnopédie do começo ao fim, sozinha, sem o Caio. A oitava saiu errada uma vez, no compasso treze. O anelar travou numa curva lá perto do fim. Mas a música chegou ao final reconhecível, inteira, e havia algo nela que foi além da técnica. Havia intenção. Havia o peso de quatro meses de tampa fechada e de seis semanas de tarde de chuva com um menino de cabelo comprido arrastando uma cadeira de escritório no parquet.

No sítio em Jaguariúna, havia umas trinta pessoas espalhadas pela área coberta. Humberto tinha alugado um piano elétrico porque sabia que a sogra gostaria de tocar alguma coisa depois do jantar.

Tereza não sabia de nada.

Quando Dora sentou no banco e as primeiras notas do Gymnopédie saíram no silêncio da noite, a filha levou as duas mãos à boca ao mesmo tempo. Humberto virou rápido pra não mostrar a expressão. Os convidados foram ficando quietos, um por um, sem que ninguém pedisse.

Caio ficou parado no círculo externo, com o prato de salgadinho ainda na mão, olhando.

Dora errou o anelar no compasso treze. Corrigiu com a passagem seguinte. Continuou.

A música chegou ao fim.

Tereza foi a primeira a se mover. Abraçou a mãe por trás, com os braços por cima dos ombros, e Dora sentiu o choro quente da filha contra o pescoço. Não virou. Ficou com as mãos sobre as teclas — os dedos da esquerda, e os três da direita que voltaram — e ficou assim um momento que não tinha tamanho medível.

Depois Caio apareceu no campo de visão dela, parado a dois metros, com o sorriso que ele sempre tentava esconder quando estava orgulhoso de alguma coisa.

Ela fez um gesto leve com a cabeça. Quase imperceptível.

Ele fez o mesmo.

Não havia mais nada a dizer. A música já tinha dito tudo que precisava, incluindo as partes que ela errou.

Publicado por Relatos Humanos em . Relatos Humanos — boas histórias para inspirar.

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