coragem

O Chão Que Eu Lavei Por Dez Anos

Por dez anos, Valdete limpou os corredores da Faculdade Federal do Maranhão sem que ninguém soubesse que ela estudava de madrugada com os livros que encontrava nos banheiros e nas lixeiras. Até o dia em que o resultado do concurso foi afixado no quadro da mesma faculdade onde ela varria o chão.

Por Relatos Humanos
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O Chão Que Eu Lavei Por Dez Anos

Tinha um jeito certo de encerar aquele corredor do bloco B sem fazer barulho.

Você aprende isso depois de um tempo: o pano levemente torcido, o movimento diagonal de dentro pra fora, a pausa antes de empurrar o balde pra não chacoalhar a água e acordar quem estava dormindo nos canapés do hall. Eram duas da manhã, o prédio estava vazio exceto por mim e pelo segurança Marinaldo, que ficava na guarita da entrada e às vezes me deixava café numa xícara que ele esquentava no microondas do refeitório antes de eu chegar.

Eu limpava a Faculdade Federal do Maranhão há seis anos naquela época. Entrei como terceirizada com quarenta e um anos, depois que a fábrica de confecções onde trabalhava faliu numa sexta-feira sem avisar ninguém. Tinha chegado até o ensino médio, parado no terceiro ano por gravidez da minha filha Simone, e esse era o limite do meu currículo na vida toda.

Mas eu gostava de ler.

Gostei sempre, desde a professora Mirtes da escola municipal de Bacabal que lia em voz alta no fim da aula se a turma ficasse quieta. Não tínhamos livros em casa — minha mãe guardava dinheiro nos frascos de café e não sobrava pra livro — mas eu pegava os da biblioteca da escola e renovava toda semana até a bibliotecária me conhecer pelo nome.

Na faculdade, eu encontrava livros em todo lugar.

Na lixeira do banheiro feminino do bloco A, duas vezes por semana tinha apostila descartada. Na bancada das cabines do quinto andar, os estudantes esqueciam sublinhados, Post-its, folhas volantes de resumo. Uma vez encontrei um livro de processo civil inteiro esquecido embaixo de um banco do corredor, com marcações até a página duzentos e trinta e dois e o restante intacto — alguém tinha desistido de lavar aquilo.

Comecei a guardar o que encontrava.

Não era de propósito no começo. Mas uma noite, limpando o laboratório de informática depois do expediente, peguei um resumo de direito constitucional que alguém tinha esquecido na mesa e li em pé enquanto esperava o piso secar. Li uma segunda vez. Levei pra casa na bolsa de lona que usava pra carregar meu material de limpeza.

Fui dormir às três e meia daquela manhã, a cabeça cheia de princípios que eu nunca tinha ouvido antes.

Isso virou hábito. Depois de limpar, antes de ir embora, eu pegava meia hora no corredor vazio e lia o que tinha encontrado naquele dia. O Marinaldo sabia e fingia que não sabia, que era o combinado não dito entre a gente.

Dois anos depois, peguei um edital de concurso público afixado no mural do corredor administrativo. Concurso para técnico em assuntos educacionais — nível médio, exigia ensino médio completo. Fiquei parada na frente daquele papel por uns cinco minutos com o cabo do rodo na mão.

Levei o edital pra casa. Coloquei na frente do espelho do banheiro.

Durante três semanas não falei pra ninguém. Nem pra minha filha Simone, que morava comigo com o filho dela de quatro anos e que ia precisar saber porque eu ia precisar da mesa da cozinha de madrugada.

Quando falei, ela ficou quieta por um tempo.

— Mãe, são quatrocentas vagas pra vinte mil inscritos — ela disse, não com maldade, com medo. O medo de ela por mim.

— Eu sei, Simone.

— Você vai estudar como? Com que material?

— Com o que eu encontrar.

Ela me olhou por um tempo. Depois disse: — Tá bom. Mas você dorme primeiro e estuda depois, não o contrário. Se você adoecer não adianta nada.

Estudei por oito meses.

A mesa da cozinha depois das onze da noite era meu lugar — depois que o neto dormia, depois que a Simone dormia, depois que a casa ficava no silêncio de casa quieta que é diferente do silêncio de casa vazia. Usava as apostilas que encontrava na faculdade, comparando um autor com o outro quando a mesma matéria aparecia em mais de um lugar, e quando algo não ficava claro eu esperava até o dia seguinte e procurava o mesmo tema em outra fonte.

Tinha vergonha de pedir ajuda aos professores. Não vergonha de pedir ajuda — vergonha de que soubessem. Porque eles me viam todo dia, me passavam pelo lado com as pastas embaixo do braço e os olhos no celular, e eu sabia que na cabeça deles eu era parte da estrutura do prédio, como as paredes e os extintores de incêndio. Que eu tivesse inteligência para alguma coisa além de limpar era uma informação que não encaixava no molde.

Uma noite, duas semanas antes da prova, eu estava no corredor do quinto andar relendo um capítulo de legislação educacional quando ouvi passos. Era o professor Alencar, da coordenação de extensão, que ficava tarde quando tinha prazo de relatório.

Ele parou ao me ver com o livro.

Fiz menção de guardar.

— Não, não. — Ele disse. — O que é isso que você está lendo?

Mostrei a apostila. Expliquei o concurso, envergonhada, olhando pro chão enquanto falava. Quando terminei de explicar, ele ficou quieto por um momento.

— A Valdete — ele disse, e era a primeira vez em seis anos que um professor usava meu nome, — você tem acesso à biblioteca nos dias que trabalha aqui?

— O cartão é dos funcionários terceirizados. Não tem acesso.

Ele ficou quieto mais um pouco. No dia seguinte, deixou uma pilha de livros na bancada perto do meu carrinho de limpeza: direito administrativo, língua portuguesa, raciocínio lógico, com um bilhete em cima: "Devolve quando quiser. Boa sorte."

Não dormi naquela noite. Não de estudo — de emoção. Uma emoção que não é alegria exatamente, é mais o tipo de sensação que acontece quando você estava com tanto peso e alguém tira uma parte sem pedir nada em troca.

Fiz a prova num sábado de outubro, na mesma faculdade onde trabalhava, mas no prédio do ginásio que eu nunca tinha entrado. Sentei na cadeira com meu lápis e minha borracha e o documento que estava amassado de tanto verificar dentro da bolsa.

Fiquei na sala por três horas e meia. Saí sem saber.

O resultado saiu dois meses depois, numa segunda-feira. Estava afixado em papel A4 no mural do corredor administrativo — o mesmo corredor que eu varrinha toda manhã, o mesmo onde tinha visto o edital dois anos antes.

Era cedo, o corredor ainda estava vazio. Eu estava passando o pano no chão quando percebi que tinham colocado a lista nova durante a noite. Larguei o pano no balde, me aproximei, procurei meu CPF na lista.

Estava em décima oitava posição.

Fiquei parada na frente do papel. Ouvi meu próprio coração. Depois fui até o banheiro, fechei o box e chorei por uns quatro minutos sem fazer barulho, porque tinha quarenta e nove anos e tinha aprendido a chorar sem barulho.

Quando saí, o Marinaldo estava na entrada do corredor.

— Passou, dona Valdete?

Só fiz que sim com a cabeça.

Ele bateu palmas devagar, o tipo de palma que é afetuosa e não pomposa. Foi tudo que precisava ser.

A posse foi em março. Eu entrei no auditório do bloco A com a blusa que a Simone tinha me dado de aniversário — seda bege, que eu nunca tinha usado porque não tinha ocasião — e me sentei nas cadeiras de frente onde ficavam os empossados. Nos meses que fiquei esperando, o professor Alencar tinha me ajudado com os documentos, com os tramites, com as coisas que eu nunca saberia sozinha que precisavam ser feitas.

A cerimônia foi longa, com discurso de diretor e leitura de nomes.

Quando chamaram o meu, subi ao palco. E foi nesse momento que eu vi, na terceira fila, a professora de língua portuguesa do curso de letras que eu reconhecia porque passava toda semana pelo meu corredor com a caneca de café sem me olhar.

Ela me olhou agora.

Não era olhar de reconhecimento — era de espanto genuíno, aquele espanto de quem está recalculando alguma coisa que não encaixava no mapa que tinha do mundo.

Eu a cumprimentei com um aceno. Ela acenou de volta, com um sorriso que era pequeno mas era real.

Depois da cerimônia, no corredor, ela veio até mim.

— Valdete, eu não sabia — ela disse.

— A maioria não sabia — eu disse, sem mágoa, porque não havia mágoa. Havia cansaço velho já resolvido.

Ela estendeu a mão. Apertamos.

Naquele dia, fui pegar meu material de limpeza pela última vez, entregar à coordenação da empresa terceirizada. Passei pelo corredor do bloco B, onde eu tinha aprendido a encerar sem fazer barulho, e fiquei parada ali por um momento.

Dez anos de chão lavado naquele corredor. Dez anos de chão que me ensinou que ninguém enxerga o que não quer enxergar — e que isso, no fim das contas, nunca foi problema meu.

Virei costas e fui embora pela saída principal, pela primeira vez.

Publicado por Relatos Humanos em . Relatos Humanos — boas histórias para inspirar.

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