Na empresa onde Rafael trabalhava, havia um gerente que humilhava os funcionarios mais simples. Gritava, expunha, descontava o mau humor em quem nao podia revidar por medo de perder o emprego. Todos viam. Todos abaixavam a cabeca. Ninguem dizia nada — afinal, quem peitasse o chefe seria o proximo a sofrer.
A vitima mais frequente era Seu Aldo, o servente mais velho da equipe, um homem honesto que aguentava as humilhacoes calado, porque precisava do salario para sustentar a familia. Cada vez que o gerente o destratava na frente de todos, o clima ficava pesado, mas o silencio reinava.
Ate o dia em que o gerente, por um erro que nem foi de Seu Aldo, o xingou diante da equipe inteira e ainda ameacou demiti-lo "para servir de exemplo". O velho baixou a cabeca, os olhos marejados, sem reagir.
Foi quando Rafael, um funcionario comum, sentiu algo subir pelo peito. Sabia o risco. Sabia que podia ser o proximo. Mas levantou a mao e disse, com a voz firme: — Com licenca. O erro nao foi do Seu Aldo, foi do sistema que travou. E, mesmo que fosse, ninguem aqui merece ser tratado assim. Isso nao esta certo.
A sala congelou. O gerente, vermelho, mandou Rafael se calar. Mas algo havia mudado. Um por um, outros funcionarios comecaram a concordar baixinho, depois em voz alta. A coragem de um destravou a coragem de todos.
A historia chegou aos donos da empresa, que ja vinham recebendo reclamacoes. O gerente foi afastado e, depois, demitido. Seu Aldo manteve o emprego e, pela primeira vez em anos, trabalhou sem medo.
O velho servente procurou Rafael depois, com os olhos cheios. — Voce arriscou seu emprego por mim. Por que? Rafael deu de ombros: — Porque alguem tinha que falar. E eu nao ia conseguir me olhar no espelho se continuasse calado.
Coragem, ele aprendeu naquele dia, nem sempre e nao ter medo. E ter medo e, mesmo assim, levantar a mao pelo que e certo.