A primeira vez que Seu João tirou um livro do lixo, ele olhou para os dois lados da rua antes de enfiar na sacola.
Era uma quinta-feira de 2009, cinco da manhã, aquela hora em que Uberlândia ainda dorme e o céu tem aquela cor roxa desbotada que some antes de qualquer pessoa acordar. O livro estava jogado em cima de cascas de laranja e papel de jornal molhado, com a capa um pouco amassada mas as páginas inteiras. Era um exemplar velho de "O Cortiço", de Aluísio Azevedo. João nem sabia quem era Aluísio Azevedo.
Ele ficou com vergonha de si mesmo durante o resto do turno. Trinta e dois anos de idade, gari, tirando livro do lixo como se fosse criança catando figurinha. O carrinho de lixo rangeu a manhã inteira enquanto ele empurrava, e cada rangido parecia confirmar alguma coisa que ele não conseguia nomear. Quando chegou em casa, suado e com o uniforme laranja cheirando a resíduo de manhã, botou o livro em cima da geladeira e não olhou pra ele por três dias.
No quarto dia, a mulher dele, a Creusa, perguntou o que era aquilo.
"Achei na rua", ele disse, sem conseguir explicar melhor.
Ela pegou o livro, folheou sem pressa, devolveu sem dizer nada. E foi essa falta de julgamento dela — aquela calma que a Creusa tinha de não precisar comentar tudo — que deu a João a coragem de abrir o livro naquela noite, deitado na cama com a luz do abajur baixinha pra não acordar o filho pequeno.
Ele leu até as três da manhã. Nunca tinha lido um romance na vida.
Depois disso, João passou a prestar atenção diferente no lixo. Não em tudo — ele não era catador, não recolhia latinhas nem papelão. Só livros. E só levava quando ninguém estava olhando, porque tinha vergonha de uma coisa que ele mesmo não sabia nomear direito. Vergonha de querer. Vergonha de achar que livro era coisa pra ele, que era pra gente que tinha estudo, pra gente que morava em outro tipo de casa.
Em dois anos, tinha quarenta e três volumes na prateleira improvisada com tábua e tijolo no quarto dos fundos. Alguns chegavam encharcados, outros com páginas grudadas, outros com a lombada partida. Certa vez ele encontrou uma coleção inteira de enciclopédias jogada num saco de lixo resistente na porta de um sobrado no Bairro Brasil. Carregou as oito enciclopédias no carrinho, debaixo das ferramentas, e trouxe pra casa aos poucos, duas a cada dia, pra não chamar atenção.
João desenvolveu um método. Primeiro, separava as páginas com a ponta de uma faca de manteiga, com cuidado de quem não pode errar. Depois, lavava a capa na torneira do quintal com escova de dente velha e um pouquinho de sabão neutro. Botava pra secar na corda de roupa, pregado pela capa, como camisa molhada, e torcia para não chover antes de secar. Às vezes ficava olhando pelos livros estendidos na corda e pensava que aquilo devia parecer estranho pra quem passasse pela calçada e espiasse pelo portão.
A Creusa começou a chamar aquilo de "o hospital dos livros". Ela falava sorrindo, sem ironia.
Em 2014, quando o filho Kauê estava com sete anos, João percebeu que o menino já sabia ler e não tinha o que ler. A escola mandava as cartilhas, mas as cartilhas acabavam. João chegou a contar os livros que tinha: oitenta e oito volumes. Dicionários, romances, livros de autoajuda com páginas marcadas por desconhecidos, uma enciclopédia incompleta que faltava o volume da letra M, um atlas escolar de 1987 com o Brasil ainda sem o estado do Tocantins, uma coleção de faroeste americano com os lombos descascados, três Bíblias diferentes.
Foi a Creusa quem disse, numa tarde de sábado em que chovia e eles dois olhavam para as prateleiras que já tomavam a parede inteira do quarto dos fundos:
"João, isso aqui não cabe mais dentro de casa."
Ele entendeu o que ela não estava dizendo diretamente. Levou um fim de semana inteiro pensando, enquanto capinava o quintal e consertava uma torneira que pingava. Na segunda-feira, antes de sair pro turno ainda de madrugada, foi até o quintal e ficou olhando para o galpãozinho de madeira que ele tinha construído anos atrás pra guardar ferramentas. Estava meio abandonado. Cabia, no máximo, vinte metros quadrados, mas cabia.
Levou três meses de fins de semana pra reformar, sozinho. Nivelou o piso de cimento, trocou duas tábuas podres da parede, colocou um exaustor no teto pra não abafar. Pintou de azul — um azul forte, de marítimo, que a Creusa escolheu na ferramenta. Fez prateleiras de caixote de feira e as lixou até ficarem sem farpa. Colocou uma plaquinha que a Creusa escreveu à mão num pedaço de cartolina plastificada, passada a ferro de engomar pra endurecer:
BIBLIOTECA DO SEU JOÃO — PODE ENTRAR.
No primeiro sábado que abriu, ninguém entrou.
João ficou sentado na cadeira de plástico que ele tinha colocado do lado de dentro, folheando um livro que já tinha lido duas vezes, esperando. Uma hora da tarde. Duas horas. A rua quieta e quente, o sol pesado do mês de outubro, o cheiro de terra molhada de uma chuva que tinha passado de manhã e que não voltou. Kauê entrou, pegou um livro de histórias, saiu de novo. E João ficou sozinho.
Começou a achar que tinha feito besteira. Que era pretensão demais de um homem como ele, que o bairro tinha outras coisas pra resolver, que ninguém ia querer entrar na biblioteca de um gari.
No segundo sábado, dois meninos chegaram até o portão, olharam pra dentro com aquele olhar de criança que avalia o perigo antes de entrar em qualquer lugar, e correram.
Foi quando João percebeu que precisava deixar o portão aberto. Ele tinha deixado encostado, sem cadeado, mas encostado era diferente de aberto.
Na terceira semana, ele abriu o portão bem de par em par e botou uma cadeira de plástico amarela do lado de fora, na calçada.
Foi quando ele ouviu a voz.
"Moço. O senhor empresta ou é só pra ver?"
Era uma menina de oito anos, cabelo trançado com miçangas azuis nas pontas, uniforme da escola ainda vestido num sábado à tarde — detalhe que João só notou depois, quando já estava pensando no que aquilo significava. Ela estava no portão, segurando a grade com as duas mãos, olhando pra dentro como se fosse uma vitrine de brinquedo em véspera de Natal.
"Pode entrar", ele disse. "Empresta sim."
A menina se chamava Vitória. Morava três ruas acima, com a avó, desde que a mãe tinha ido trabalhar em Goiânia. Ela entrou devagar, passou os dedos pelas lombadas com uma concentração de quem lê sem saber que está lendo, e parou na frente da enciclopédia.
"Esse aqui fala de dinossauro?"
"Fala de tudo um pouco."
"Posso pegar?"
João não tinha sistema de empréstimo nenhum. Não tinha fichário, não tinha data de devolução, não tinha nada. Tinha um caderno de capa dura que a Creusa tinha dado a ele e que ainda estava em branco na primeira página.
"Você me fala seu nome completo e onde mora", ele disse, abrindo o caderno. "E me devolve quando terminar."
Vitória devolveu a enciclopédia duas semanas depois com oito páginas marcadas com pedacinho de papel dobrado. Ela tinha sublinhado, a lápis, as partes que achou mais importantes sobre o período jurássico. Devolveu e pegou um livro de histórias do folclore brasileiro que João tinha achado quase novo numa sacola de lixo perto de um prédio do centro — alguém tinha mudado e deixado a biblioteca inteira pra trás.
Nos meses seguintes, a biblioteca de Seu João virou ponto de encontro da criançada da rua. Chegou a ter quatorze crianças ao mesmo tempo numa tarde de sábado, sentadas no chão de cimento ou em caixotes de madeira que João foi juntando, cada uma com um livro diferente. Ele ficava na cadeira, lendo junto, respondendo pergunta quando alguém perguntava, quieto quando ninguém perguntava. A Creusa aparecia às vezes com copo de água pra oferecer, sem fazer cerimônia.
Numa tarde de 2019, Vitória voltou com onze anos e uma redação dobrada na mão. Ela tinha ficado em segundo lugar num concurso de escrita da escola municipal do bairro. O tema era "Quem me ensinou algo importante".
Ela tinha escrito sobre a biblioteca.
João leu as três páginas ali mesmo, com a menina esperando de pé, os braços cruzados na frente do peito com aquela mistura de orgulho e timidez que só criança tem. Quando acabou, dobrou o papel do jeito que estava, devolveu pra ela e ficou um momento sem saber o que dizer.
"Guardei o primeiro livro porque tive vergonha de jogá-lo de volta", ele disse, por fim.
Vitória não entendeu bem o que ele quis dizer. Mas João entendeu.
A vergonha que ele tinha carregado por anos não era de pegar livro do lixo. Era de acreditar que aquilo poderia importar para alguém além dele. E naquele dia, com a redação de uma menina de onze anos na mão, ele entendeu que tinha importado muito mais do que ele mesmo conseguia enxergar de dentro.
Às vezes a gente descobre o tamanho de uma coisa só quando ela passa pelos olhos de outra pessoa.