Fabio estava desempregado havia mais de um ano. Tinha distribuido curriculos em toda a cidade, batido em portas, feito entrevistas que nunca davam em nada. A cada nao, um pouco da esperanca ia embora. As contas se acumulavam, e a paciencia da familia, cansada, tambem se esgotava.
Quando recebeu o e-mail chamando para mais uma entrevista, Fabio quase nao foi. Estava sem dinheiro para a passagem, sem roupa decente, e principalmente sem fe de que daria certo. — Pra que? — pensou. — Vai ser mais um nao. Sentou na cama, derrotado.
Foi a filha pequena quem mudou tudo. Ela entrou no quarto, entregou ao pai o cofrinho de moedas que juntava havia meses e disse: — Pra sua passagem, pai. Pra voce ir tentar. Fabio engoliu o choro. Pegou emprestada a camisa de um vizinho, contou as moedas da filha e foi.
Chegou atrasado, suado, nervoso. Achou que tinha perdido a vaga so pelo atraso. Mas, na sala, o entrevistador era um homem mais velho, de olhar atento. Em vez de cobrar o atraso, perguntou sobre a vida de Fabio. Ouviu sobre o ano duro, sobre as moedas da filha, sobre a vontade de trabalhar que nao tinha morrido.
O homem se calou um instante e disse: — Sabe por que eu te chamei mesmo seu curriculo nao sendo o mais qualificado? Porque eu tambem ja estive desempregado e desesperado um dia. E alguem me deu uma chance. Hoje e a minha vez de dar.
Fabio foi contratado. Voltou para casa com o emprego e com o cofrinho da filha intacto — fez questao de devolver cada moeda. Anos depois, ja estavel, ele guarda aquele cofrinho na estante como lembrete.
— Eu quase nao fui — costuma dizer. — A esperanca tinha quase acabado. Mas bastou um fiozinho dela, e uma filha que acreditou, pra mudar tudo. Nunca falte a sua ultima chance. Ela pode ser, justamente, a que da certo.