O açude tinha virado uma mancha de barro. Você conseguia ver o fundo — rachado, cor de tijolo velho — de onde antes havia quatro metros de água. Era fevereiro, e a última chuva de verdade tinha sido em abril do ano anterior, aquela que chegou tarde e foi embora rápido, deixando a terra com uma promessa que não cumpriu. No fim do verão, os vizinhos de Seu Aurélio já estavam contando os animais que restavam e os que não tinham mais jeito.
Um a um, foram embora. Primeiro o genro do vizinho do lado, que vendeu a caminhonete e o gado e pegou estrada para a capital sem olhar para trás. Depois a família do Zé das Pedras, que levou só o que cabia numa Rural enferrujada e deixou a casa aberta — não havia mais o que trancar. Depois outros, e outros. Cada partida era uma tarde mais quieta, uma fumacinha a menos no horizonte, um cão a menos latindo no fundo da tarde.
Seu Aurélio ficou.
A esposa perguntou se ele estava certo do que estava fazendo. Perguntou com aquela voz específica que não é de briga mas de medo real, o medo de quem tem filho pequeno e sabe que a seca não tem pena de ninguém. Ele respondeu que estava. E na semana seguinte fez o que todos achavam loucura: foi ao armazém, o único que ainda abria na cidade, comprou sementes de milho e feijão-de-corda com o pouco que tinham guardado, voltou para a roça e plantou.
Os vizinhos que ainda restavam o viram do outro lado da cerca e balançaram a cabeça. Um chamou de teimosia. Outro, com mais gentileza, chamou de tristeza. "Pra que plantar, home, se não chove?" Seu Aurélio parou de cavoucar por um instante, apoiou o facão na coxa e disse o que diria outras vezes depois: "Porque quando a chuva voltar, eu quero ter semente no chão. Quem desiste de plantar, desiste da chuva."
O homem da cerca não respondeu. Aurélio voltou à enxada.
As sementes não brotaram. Ou brotaram mal — um ou dois talos finos que a terra seca rapidamente engoliu. Mas Aurélio foi até o armazém de novo e comprou mais sementes com o que sobrou. A esposa olhou para a caixa de dinheiro e ficou quieta. Ele entendeu o silêncio e disse: "Deixa eu tentar mais uma vez." Ela não disse sim, mas também não disse não. Enrolou o pano de prato na mão como fazia quando estava guardando uma coisa dentro de si e voltou para a cozinha.
Os meses que se seguiram foram os mais duros que Aurélio lembrava. A cidade pequena, que já era silenciosa, foi ficando ainda mais. O comércio fechou cedo, a escola teve dias sem merenda, o preço da água de carro-pipa era alto demais para quem não tinha mais de onde tirar. Houve semanas em que a família comia o que a horta dos fundos ainda dava — abóbora, jerimum, o que conseguia beber da água que Aurélio buscava no carro, quilômetros de barro e poeira.
Havia noites em que ele se sentava na varanda, sozinho, depois que todos dormiam, e ficava olhando o céu. Era um céu bonito de seca — estrelas limpíssimas, sem nuvem que as cobrisse —, mas ele não queria aquela beleza. Queria nuvem. Queria o cheiro de terra molhada, aquele cheiro específico que o sertanejo conhece de cor e que não tem nome em dicionário nenhum. Havia noites em que pensou, sério, que deveria ter ido embora. Mas de manhã estava de pé antes do galo, ia até a roça e cavava.
A esposa parou de perguntar quando ia acabar. Passou a levar café para ele na roça, sem comentar. Às vezes ficava um pouco do lado, olhando a terra como ele olhava, como se os dois tentassem ouvir algo que ainda não havia falado.
Em novembro, o céu mudou. Não de uma vez, não do jeito que aparece nos filmes. Mudou aos poucos — uma nuvem diferente aqui, um vento que veio de outro lado, um cheiro distante que os pássaros sentiram antes das pessoas. Aurélio estava na roça quando sentiu. Parou. Levantou a cabeça. O céu escurecia no horizonte com aquela cor específica, violeta-acinzentada, que no sertão tem só um significado.
A chuva chegou pesada, sem aviso, de repente. Aquele tipo de chuva que cai com raiva boa, que bate no chão vermelho e faz aquele barulho de quem estava com falta. Aurélio saiu de debaixo da cumeeira onde havia se abrigado e ficou parado no meio do terreiro, os braços abertos, a chuva encharcando a roupa, o chapéu, os sapatos, tudo. A esposa o viu da janela e foi até a porta. Ficou olhando para aquele homem encharcado no meio do temporal, rindo e chorando ao mesmo tempo, e alguma coisa nela também desfez — um nó que havia ficado ali por meses, apertado e quieto.
Nas semanas que se seguiram, a roça de Aurélio acordou. As sementes que ele plantara na última rodada brotaram com aquela velocidade que a terra seca guarda, como se soubesse que o tempo estava passando e agora precisava recuperar. O milho saiu reto, o feijão pegou a treliça velha que ele havia deixado de pé por otimismo. O verde foi chegando depressa naquela terra que só conhecia o marrom.
As terras abandonadas dos vizinhos seguiam secas e quietas. Ninguém havia ficado para plantar quando a chuva voltou.
Aurélio colheu. Colheu bem. Vendeu o que sobrou do consumo da família, comprou mais sementes, guardou para o próximo ciclo. Chamou os poucos vizinhos que ficaram e ajudou a plantar nos terrenos deles também, de graça. "A terra não tem raiva de ninguém", dizia. "Só precisa de alguém que não desista dela antes da chuva."
Quando chegou quem havia partido — alguns voltaram na estação seguinte, curiosos com as histórias que correram — e viram a roça de Aurélio verdejando, as perguntas foram muitas. Como ele sabia que a chuva viria? Por que ficou quando todos foram? O homem enxugava o rosto com o lenço gasto e respondia sem vaidade: "Não tinha como saber. Eu só sabia que, se ela viesse e eu não tivesse semente no chão, eu ia me arrepender por muito tempo."
Havia algo mais simples ainda, que ele não costumava dizer em voz alta mas que a esposa sabia: ele ficou porque não conseguia imaginar abandonar a terra que o pai havia trabalhado, e o avô antes do pai. Não era teimosia. Era pertencimento. E pertencimento, às vezes, é a coisa mais teimosa do mundo.
Nos anos que se seguiram, quando algum jovem da região pensava em partir na primeira seca, os mais velhos contavam a história do Seu Aurélio. Não como moral de fábula, não como receita. Só como prova de que, às vezes, quem fica é o único que está lá quando a chuva volta. E que a chuva, no sertão, sempre volta.