Era vespera de Natal e a casa de Dona Sueli estava silenciosa demais. O marido tinha perdido o emprego meses antes. As contas se acumulavam. Na geladeira, quase nada. Os tres filhos pequenos perguntavam se o Papai Noel ia passar, e ela respondia com um sorriso que escondia o aperto no peito.
Naquela tarde, ela rezou. Nao por presentes, nem por luxo. Rezou apenas para que os filhos nao dormissem com fome na noite de Natal. Depois enxugou os olhos e foi tentar fazer um arroz com o pouco que tinha.
Ao anoitecer, bateram a porta. Quando Dona Sueli abriu, nao havia ninguem. Apenas, no chao da entrada, caixas e sacolas. Muitas. Frango, arroz, panetone, refrigerante, frutas. E embrulhados coloridos com o nome de cada filho, escritos a mao. Um bilhete simples, sem assinatura, dizia: "Para uma familia que merece um Natal feliz. De alguem que tambem ja precisou."
Ela olhou para a rua, procurando alguem para agradecer. Nao havia ninguem. So a noite e as luzes piscando nas casas vizinhas.
A ceia daquele Natal foi a mais farta e a mais emocionada que aquela familia ja teve. As criancas abriram os presentes aos gritos de alegria. O marido, calado, segurava a mao da esposa. E Dona Sueli, entre uma lagrima e outra, so conseguia repetir: — Tem gente boa no mundo. Tem.
Nunca descobriram quem foi. Os anos passaram, a vida melhorou, o marido reergueu o negocio. E todo Natal, desde entao, a familia faz a mesma coisa: prepara caixas e sacolas, escolhe em segredo uma familia em dificuldade e deixa tudo na porta, sem assinar.
— A gente recebeu sem saber de quem — diz Dona Sueli. — Entao a gente da sem dizer quem. E assim a corrente nao para. A esperanca, ela aprendeu, e isso: passar adiante a bondade que um dia nos salvou.