perdao

A Porta que a Mae Nunca Trancou

Depois de anos de escolhas erradas, um filho volta para casa sem saber se ainda seria aceito.

Por Relatos Humanos
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A Porta que a Mae Nunca Trancou

Rodrigo saiu de casa aos dezoito, batendo a porta, certo de que sabia tudo da vida. Misturou-se com as companhias erradas, fez escolhas piores ainda. Sumiu. A mae, Dona Iraci, passou anos sem noticias, dormindo com o telefone do lado, temendo a ligacao que nenhuma mae quer receber.

Os vizinhos diziam para ela esquecer o filho, que ele tinha escolhido aquele caminho. Dona Iraci respondia sempre o mesmo: — Mae nao esquece. Mae espera. E, todas as noites, antes de dormir, ela deixava a luz da varanda acesa e a porta destrancada. "Se ele voltar de madrugada, nao quero que pense que nao tem mais lugar aqui."

Os anos se arrastaram. Sete, ao todo. Rodrigo, longe, tocou o fundo do poco. Perdeu tudo, viu amigos caindo, e numa noite fria, sem ter para onde ir, lembrou-se da unica luz que sempre estivera acesa: a varanda da mae. Mas o medo o paralisava. "Depois de tudo que eu fiz, ela vai me receber? Vai bater a porta na minha cara?"

Mesmo assim, voltou. Chegou de madrugada, magro, envergonhado, parado diante do portao da infancia. A luz da varanda estava acesa, como sempre. Ele tocou a campainha com a mao tremendo, pronto para ouvir a rejeicao que achava merecer.

A porta abriu. Dona Iraci, de camisola, o cabelo branco, olhou para aquele homem destruido que um dia fora seu menino. Nao houve gritos. Nao houve cobranca. Ela apenas abriu os bracos e disse, com a voz embargada: — Voce demorou, filho. Mas a porta nunca esteve trancada.

Rodrigo desabou nos bracos da mae, chorando como crianca. Recomecar foi dificil, mas com aquele colo de volta, foi possivel. Hoje ele cuida da mae idosa e conta a quem quiser ouvir: — Eu achava que tinha perdido o direito de voltar. Mas o amor de mae nao trabalha com merecimento. Trabalha com perdao.

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