Tonho e Ze cresceram como irmaos. Subiam nas mesmas arvores, dividiam o mesmo prato, sonhavam os mesmos sonhos de menino. Diziam que nada no mundo separaria aquela amizade. Mas a vida, as vezes, e feita de pequenos orgulhos que viram grandes muros.
A briga foi boba, dessas que ninguem lembra direito como comecou — um emprestimo mal entendido, uma palavra atravessada, um ressentimento que nenhum dos dois quis desfazer. Pararam de se falar. E o que era para durar uma semana durou quarenta anos.
Moravam na mesma cidade pequena. Cruzavam-se na feira, na missa, na rua. Desviavam o olhar. Cada um, em casa, contava a propria versao da historia, certo de que estava certo. Os filhos cresceram ouvindo falar do "outro" como um quase-inimigo. E o tempo, indiferente, foi passando.
Ate que Tonho adoeceu, ja velho. Acamado, sentindo que o fim se aproximava, pediu a um neto que fizesse uma coisa: — Vai chamar o Ze. Diz que eu preciso falar com ele antes de ir. O neto estranhou — nunca tinha visto os dois juntos. Mas foi.
Ze hesitou. Quarenta anos de orgulho pesam. Mas, no fundo, ele tambem carregava aquela ferida. Foi. Entrou no quarto devagar. Os dois velhos se olharam, e quatro decadas de teimosia desabaram num instante. — Ze... — Tonho... Nem precisaram dizer o motivo da briga. Nenhum dos dois lembrava mais. So lembravam das arvores, dos sonhos de menino, do tempo perdido.
Riram e choraram juntos naquela tarde, contando casos antigos como se nada tivesse acontecido. Tonho partiu poucos dias depois, em paz. E Ze, no velorio, disse a quem quisesse ouvir: — A gente jogou fora quarenta anos de amizade por uma bobagem que nem lembramos. Nao esperem o leito de morte pra perdoar. O tempo que sobra e sempre menor do que a gente pensa.