Foram doze anos sem se falarem. Doze anos por causa de uma discussão que, com o tempo, nenhum dos dois lembrava direito como tinha começado. Sabiam apenas que palavras duras foram ditas, portas foram batidas, e o orgulho — esse muro teimoso — se ergueu entre André e o pai.
André casou sem o pai na cerimônia. Teve um filho que o avô nunca conheceu. Mudou de cidade, de emprego, de vida. Sempre que a mãe ligava pedindo que ele desse o primeiro passo, ele respondia: — Ele que começou. Ele que peça desculpas. E do outro lado, o velho dizia o mesmo para a esposa: — Eu sou o pai. Ele que me procure.
Dois homens iguais demais para se entenderem.
Foi a esposa de André quem cansou. Numa tarde de domingo, sem avisar, ela digitou o número do sogro no celular e entregou o aparelho ao marido, já chamando. — Conversa. Pela sua vida, conversa. André quase desligou. Mas então ouviu, do outro lado, a voz do pai — mais velha, mais cansada do que ele lembrava: — Alô?
Houve um silêncio longo. André sentiu a garganta fechar. — Pai... sou eu. O André. Outro silêncio. E então ele ouviu o pai chorar — algo que nunca tinha visto na vida. — Filho. Meu filho. Eu rezei tanto por essa ligação.
Conversaram por duas horas. Pediram desculpas os dois, ao mesmo tempo, atropelando as palavras. André contou do neto. O pai pediu para vê-lo. Combinaram um almoço para o domingo seguinte. Desligaram com a promessa de recomeçar, doze anos depois.
Mas o domingo seguinte não chegou para os dois. Na quarta-feira, a mãe ligou em prantos: o pai havia sofrido um infarto durante o sono e partido em paz. André desabou. E no meio da dor, veio um pensamento que o assombrou e o salvou ao mesmo tempo: e se aquela ligação não tivesse acontecido?
No velório, a mãe lhe entregou um papel. Era a agenda do pai. Na página do domingo em que tinham conversado, com a letra apertada do velho, estava escrito: "Hoje meu filho me ligou. Hoje foi o dia mais feliz da minha vida. Obrigado, Deus."
André guarda esse papel na carteira até hoje. E sempre que ouve alguém dizer "ele que peça desculpas primeiro", ele conta a sua história. — O orgulho — ele diz — me custou doze anos. Faltou uma semana pra me custar tudo. Não espere o domingo certo pra perdoar. Pode não ter domingo nenhum.