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A Última Viagem do Seu Raimundo

Durante trinta e oito anos ele levou os mesmos caminhos de terra, buscando crianças na madrugada para a escola. No dia em que se aposentou, descobriu que a estrada também tinha guardado uma surpresa para ele.

Por Relatos Humanos
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A Última Viagem do Seu Raimundo

Seu Raimundo dirigia o ônibus escolar da zona rural havia trinta e oito anos. Conhecia cada buraco da estrada de terra como conhecia as rugas da própria mão. Sabia em que curva o sol batia primeiro, qual porteira rangia, em que casa a luz da cozinha já estava acesa às cinco da manhã, com a mãe preparando o café antes de mandar os filhos para o ponto.

Ele saía no escuro. Parava em frente a casas de madeira, sítios distantes, fim de mundo onde nenhum outro transporte chegava. As crianças subiam ensopadas de orvalho, algumas ainda com sono, e ele tinha um bom-dia para cada uma. Sabia os nomes de todas. Sabia quem tinha prova, quem estava doente, quem tinha perdido o avô na semana anterior.

Gerações inteiras passaram por aquele ônibus. Ele levou para a escola crianças que cresceram, foram embora, voltaram — e depois colocaram os próprios filhos no mesmo banco onde um dia se sentaram. "Seu Raimundo levou eu, agora leva meu menino", diziam, e ele ria, dizendo que estava ficando velho de tanto carregar gente.

Aos sessenta e cinco anos, chegou a hora de parar. A prefeitura ia colocar um motorista mais novo, um ônibus mais novo. Seu Raimundo aceitou com a serenidade de quem entende que tudo tem seu tempo. Mas, na véspera do último dia, mal dormiu. Ficou pensando em todas aquelas madrugadas, em quantos quilômetros de terra batida tinham passado por baixo daquelas rodas.

No último dia, ele fez o trajeto como sempre. Madrugada escura, café quente na garrafa térmica, o farol cortando a neblina. Mas algo estava estranho. Na primeira casa, em vez de uma criança no ponto, havia uma família inteira esperando, de pé, com uma faixa de papel pardo. Na segunda casa, o mesmo. Na terceira, havia gente que ele não via há anos — adultos agora, alguns de terno, outros de uniforme de trabalho, todos parados na beira da estrada no escuro.

Seu Raimundo foi diminuindo a marcha, confuso, o coração apertado. Em cada parada do seu trajeto de sempre, havia pessoas esperando. Crianças que ele tinha levado vinte, trinta anos atrás. Velhos que tinham confiado os filhos a ele. Mães que hoje eram avós. Todos de pé, na poeira da madrugada, segurando cartazes: "Obrigado, Seu Raimundo." "Você cuidou da gente." "A estrada não vai ser a mesma."

Quando ele chegou ao pátio da escola, não conseguia mais enxergar direito a estrada — os olhos estavam embaçados. Havia centenas de pessoas no portão. A escola tinha organizado tudo em segredo, avisando, uma a uma, as famílias dos antigos alunos. Quando ele desceu do ônibus pela última vez, com as pernas trêmulas, o aplauso durou tanto que ele teve que se segurar na porta para não cair.

Um rapaz se aproximou. De terno, gravata, sapato lustrado. "O senhor não lembra de mim", disse ele, sorrindo. "Eu morava lá no fim da linha. Era o menino que chorava todo dia porque tinha medo da escola. O senhor me deixava sentar na frente, ao seu lado, e me contava história até a gente chegar." Ele pausou, e a voz falhou. "Hoje eu sou professor. Naquela escola. Por causa daquelas histórias."

Um por um, eles vieram. Uma enfermeira. Um pedreiro. Uma costureira. Um agricultor que disse que era o único da família que sabia ler, e que aprendeu porque seu Raimundo nunca deixou ele faltar, mesmo nos dias de chuva em que a estrada virava lama. Cada um trazia um pedaço da própria vida e devolvia a ele, como quem presta contas de uma semente que deu fruto.

Seu Raimundo, que sempre achou que apenas dirigia um ônibus, descobriu naquela manhã que tinha feito muito mais. Ele tinha sido, durante trinta e oito anos, a primeira pessoa que aquelas crianças viam todo dia antes do mundo — e a primeira a dizer, no escuro, que ia dar tudo certo.

Hoje ele já não dirige. Mas, de vez em quando, alguém para o carro na frente da casa dele, buzina, e grita pela janela: "Bom dia, Seu Raimundo!" E ele levanta da cadeira da varanda, acena, e sorri o mesmo sorriso de quem, durante quase quatro décadas, achou que estava só fazendo o seu trabalho — sem saber que estava, na verdade, plantando uma estrada inteira de gente boa.

Publicado por Relatos Humanos em . Relatos Humanos — boas histórias para inspirar.

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