Eu aprendi a contar o tempo pelos passageiros.
Motorista de ônibus urbano faz isso sem perceber. Você vai memorizando: o rapaz de fone que entra na Avenida Brasil toda manhã de segunda a sexta, o senhor de terno que lê jornal de papel ainda hoje, em 2023, como se o mundo tivesse parado num ponto que era bom e não precisava mudar. Cada um vira uma referência, um ponto fixo no meio do dia que vai e vem igual ao sol.
A Dona Conceição era minha referência das terças.
Linha 7, saída do terminal às 13h40, chegada ao cemitério municipal às 14h12. Ela subia sempre na quarta parada, perto da farmácia do Bezerra, com um buquê de flores embrulhado em papel kraft. Margaridas quase sempre. Às vezes cravos brancos. Nunca rosas — isso eu percebi cedo, não sei explicar por quê, mas nunca eram rosas.
No primeiro dia que ela entrou no meu ônibus, eu estava há três meses naquela linha. Ela era miúda, cabelo completamente branco preso num coque baixo, vestido floral de mangas compridas mesmo no calor, e uma bolsinha de couro preto que devia ter uns quarenta anos de uso, o couro já macio demais de tanto ser tocado. Entrou devagar, passou o cartão no validador, e foi andando pelo corredor olhando os bancos, como faz gente que já tem um lugar preferido mas não quer reclamar se encontrar ocupado.
O banco número quatro, janela do lado esquerdo, estava vazio.
Ela sentou, ajeitou as flores no colo com cuidado, olhou pro vidro. Ficou o resto do trajeto assim, quieta, olhando a cidade passar sem aparente pressa de chegar.
Na semana seguinte, mesma coisa. Terceira semana, idem. Quando chegou a quarta terça, eu já estava esperando. O banco número quatro era popular — ficava perto da porta do meio, tinha boa vista, era o preferido de muita gente. Mas naquela terça eu pedi no interfone, de um jeito natural, que os passageiros preferissem os bancos mais ao fundo. A maioria foi. O banco ficou vazio.
Ela entrou, foi direto pro banco número quatro sem hesitar, sentou, ajeitou as flores. Não me olhou, não disse nada. Mas aquilo virou minha rotina tanto quanto era a dela.
Durante quase três anos, toda terça em que eu trabalhava na linha 7, eu garantia aquele banco. Às vezes era difícil — entrava muita gente antes da quarta parada. Eu precisava inventar desculpas, dizer que estava com problema no assento, colocar uma plaquinha escrita à mão, uma vez até fingi que tinha caído algo pesado embaixo do banco.
Meu cobrador, o Valdir, perguntou numa tarde de terça:
— Donizete, você tá guardando esse banco pra quem?
— Pra uma passageira — eu disse.
— Namorada?
— Não, Valdir. Passageira mesmo. Uma senhora que vai ao cemitério.
Ele ficou me olhando com aquela cara de quem não entende nada mas sabe que vai ser inútil perguntar mais.
A Dona Conceição nunca pediu o banco. Nunca agradeceu, porque nunca soube, pelo menos eu achava que não sabia. Às vezes eu me perguntava se ela percebia que estava sempre ali esperando por ela, ou se ela achava só que tinha sorte toda terça. Mas não me importava saber. Era a minha parte da história, e ela não precisava saber pra que fosse real.
Certa terça de outubro, ela desceu na parada do cemitério e o embrulho de flores caiu no chão do corredor sem ela perceber, escorregou da mão quando ela se levantou. Eu freiéi, chamei no interfone, mas ela já tinha desaparecido pelo portão de ferro do cemitério. O Valdir desceu correndo com o buquê. Ela estava lá dentro, já na alameda de cimento, e quando o Valdir chegou até ela e colocou as flores na mão dela, ela abraçou o embrulho no peito como se fosse uma criança que tinha se perdido e voltado.
Foi a única vez que eu a vi de perto, no espelho retrovisor. O rosto dela quando percebeu que as flores tinham voltado.
Aí ela sumiu.
Primeira terça sem aparecer eu pensei: ficou resfriada, vai voltar na semana que vem. Segunda semana: família visitando, feriado municipal, qualquer coisa. Terceira semana eu já estava preocupado de verdade, sem saber bem com que direito, porque eu nem sabia o nome dela. O banco número quatro ficava vazio nas terças e aquilo me pesava de um jeito que não saberia explicar pra ninguém.
Quarta semana, resolvi perguntar.
Na parada da farmácia do Bezerra, puxei o freio de mão, me levantei, pedi dois minutos ao Valdir com um olhar que não admitia discussão, e entrei na farmácia. Perguntei se conheciam uma senhora idosa, cabelo branco em coque, vestido floral, que tomava o ônibus ali toda terça com um buquê de flores.
O rapaz do balcão sorriu de reconhecimento.
— A Dona Conceição? Conhece todo mundo por aqui. Ela mora ali na rua das Acácias, número quinze. Mas ela caiu uns dias atrás, quebrou o fêmur. Tá em casa sem poder sair.
Voltei pro ônibus sem dizer nada. Fiquei o resto do turno pensando, fazendo o trajeto no automático enquanto o pensamento ia e voltava.
Queda de fêmur em pessoa idosa é coisa séria. Minha avó quebrou o fêmur aos setenta e dois anos e nunca voltou ao que era antes — ficou com medo de andar, ficou em casa, ficou menor. Eu não conhecia a Dona Conceição de verdade — mal sabia o nome dela antes daquela tarde — mas conhecia as margaridas em papel kraft e o jeito que ela ajeitava as flores no colo antes de olhar pela janela, e o silêncio que ela carregava, que não era tristeza exatamente, era mais uma conversa que continua mesmo quando a outra pessoa não está mais.
Falei com o Valdir no fim do turno.
— Ela não vai poder ir ao cemitério visitar o marido tão cedo — eu disse.
— É triste — ele disse.
— Ia ser triste se a gente não fizesse nada — eu disse.
Valdir ergueu a sobrancelha, esperou.
— Vou levar as flores pra ela.
Ele ficou quieto um segundo. Depois disse: — Você é um cara esquisito, Donizete. — E disse isso sorrindo.
Passei numa floricultura no dia seguinte, antes do turno. Pedi margaridas, pedi que embrulhassem em papel kraft do jeito que floricultura faz quando quer parecer artesanal. Fui na rua das Acácias no sábado de manhã, dia de folga, com as flores na mão e uma certa consciência de que podia parecer estranho aparecer assim na casa de uma desconhecida.
A casa era pequena, de tijolo aparente, com uma mangueira velha na calçada. Toquei a campainha. Demorou. A porta abriu e apareceu uma mulher de uns cinquenta anos, parecida com a Dona Conceição na estrutura miúda, nos olhos.
— Boa tarde. Meu nome é Donizete. Sou motorista de ônibus, linha 7. Sua mãe pegava meu ônibus toda terça.
Ela me olhou por um momento, avaliando.
— Pode entrar — disse, depois de uma pausa curta.
A Dona Conceição estava sentada numa poltrona floral na sala, a perna direita imobilizada numa bota ortopédica apoiada num banquinho. Ela me olhou sem me reconhecer — claro, ela nunca tinha me visto de frente, só sabia de mim o que todos os passageiros sabem do motorista: um vulto na cabine, dois olhos no espelho retrovisor.
— Trouxe margaridas — eu disse, e coloquei o buquê na mesinha ao lado dela.
Ela olhou as flores por um momento sem falar. Depois levantou os olhos pra mim.
— Meu Deus — ela disse, bem baixinho. — Você é o motorista da linha 7.
— Sou.
— Você guardava o banco pra mim, não guardava?
Fiquei sem jeito. Não sabia que ela sabia.
— Guardava — eu admiti.
Ela ficou me olhando com uma expressão que não sei nomear direito. Não era gratidão comum, não era surpresa. Era reconhecimento — o jeito que a gente olha quando descobre que não estava tão invisível quanto pensava, que alguém notou sem que você pedisse.
— Eu sabia desde o segundo mês — ela disse. — Mas nunca perguntei porque tinha medo de que você dissesse que era coincidência e eu me sentisse boba.
A filha, Adriana, trouxe café e um prato de biscoito de polvilho. Ficamos conversando por quase uma hora. Ela me contou do Seu Antônio, quarenta e dois anos de casados, que tinha morrido seis anos atrás, e que as terças eram o dia em que eles costumavam passear juntos, antes — mercado, sorvete, às vezes cinema. Que ir ao cemitério naquele dia era a forma que ela tinha encontrado de não deixar aquela terça virar um dia como qualquer outro.
— As margaridas eram as flores preferidas dele — ela disse. — Ele achava que margarida era flor de pobre, mas eu achava que era a flor mais honesta que existe.
Na semana seguinte, levei margaridas de novo. Na outra, também. Toda terça-feira, enquanto ela não podia ir, eu ia até a rua das Acácias e deixava as flores na porta, embrulhadas em papel kraft. Às vezes a Adriana abria a porta e a gente tomava café. Às vezes eu só deixava ali e ia embora.
Foram quase três meses até ela conseguir andar com o andador.
No dia que ela voltou ao ônibus, subiu devagar pela porta dianteira, passou o cartão com cuidado para não perder o equilíbrio, e foi pelo corredor com os passos curtos de quem ainda está negociando com o próprio corpo. O banco número quatro estava vazio.
Ela sentou. Ajeitou o buquê de margaridas no colo. Olhou pela janela do lado esquerdo.
No espelho retrovisor, quando o ônibus arrancou e ela não estava mais olhando pra frente, eu vi que ela estava sorrindo para algo que estava do lado de fora ou dentro, eu não sei dizer.
Não falamos nada. Não precisava.
Tem gente que a gente carrega sem saber que está carregando.