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O Mutirao que Reconstruiu a Casa de Seu Vicente

Quando o temporal levou o teto do velho, um bairro inteiro provou que comunidade ainda existe.

Por Relatos Humanos
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O Mutirao que Reconstruiu a Casa de Seu Vicente

A tempestade chegou depois da meia-noite, daquelas que não avisam. Primeiro o vento, que bateu de repente como se alguém tivesse aberto uma janela enorme lá no alto. Depois a chuva, grossa, quase horizontal. E então o som — uma espécie de rangido comprido seguido de um estrondo que Seu Vicente descreveu depois como "o barulho que a casa faz quando pede socorro."

Parte do telhado foi embora. Não toda, mas o bastante. A água entrou pelo buraco aberto como se soubesse o caminho, inundou o quarto, encharcou o colchão onde o velho dormia. Ele acordou com a chuva no rosto, sentou na cama molhada, acendeu a luz — que ainda funcionava, por milagre — e ficou olhando para o céu que agora estava bem ali, do lado de dentro, escuro e carregado.

Passou o resto da noite sentado na cadeira da sala, a única parte da casa que a chuva ainda não havia alcançado, com uma coberta nos ombros e os olhos fixos numa parede que ele mesmo havia levantado quarenta anos antes, quando a vida tinha outro peso e as costas, outra disposição.

Ao amanhecer, foi ao quarto avaliar. O colchão era uma esponja. As fotos da Creusa — a esposa falecida, em porta-retratos espalhados pela cômoda — algumas estavam molhadas, as molduras de madeira inchadas. Ele as pegou uma por uma e levou para a sala com o cuidado de quem transporta coisas frágeis demais para o mundo. Depois saiu para a varanda, sentou na cadeira de palha e ficou olhando o estrago com a calma impotente de quem sabe que não tem para onde começar.

Dona Fátima, da padaria na esquina, passou às sete da manhã com o carrinho de entregas e parou quando viu o telhado. Ficou alguns segundos em silêncio, olhando. Depois olhou para Seu Vicente na varanda, com a coberta ainda nos ombros, os ombros caídos.

Não perguntou se ele estava bem. Era evidente que não estava. Perguntou se ele havia tomado café. Ele disse que não havia. Ela foi buscar um da padaria, ainda quente, com um pão de queijo embrulhado num guardanapo.

Enquanto ele bebia, ela pegou o celular.

A mensagem no grupo do bairro tinha catorze palavras: "Gente, o teto do Seu Vicente caiu. Vamos fazer alguma coisa?" Ela não pediu, não organizou, não estabeleceu regras. Só jogou a frase e esperou.

As respostas vieram antes mesmo de Seu Vicente terminar o café. Primeiro o Edivaldo, o pedreiro que havia se aposentado mas guardava as ferramentas como relíquias. Depois o Rodrigo, da loja de material de construção no centro, que disse que podia separar telhas e cimento antes de abrir o caixa. Depois as mulheres — Dona Geralda, Cida, Maristela — que perguntaram sobre almoço, quantas pessoas, podiam dividir. Até a professora Silvana, que morava no outro lado do bairro e só conhecia Seu Vicente de vista, apareceu no grupo perguntando o que podia trazer.

No sábado de manhã, Seu Vicente estava na varanda quando começaram a chegar. Primeiro o Edivaldo, com a caixa de ferramentas e mais dois vizinhos atrás. Depois o caminhão do Rodrigo com as telhas. Depois as mulheres com panelas, como se estivessem indo para uma festa — e de certo modo estavam.

O velho ficou parado olhando por um tempo que ele depois descreveu como "o momento mais esquisito da minha vida — esquisito de bom, sabe?" Não sabia o que fazer com aquela quantidade de gente que havia aparecido por causa dele, numa manhã de sábado, sem ter sido chamada, sem pedir nada em troca.

Tentou ajudar, mas o Edivaldo o mandou sentar. — O senhor fica aqui supervisionando, Seu Vicente. Faz de conta que é o engenheiro. O velho ficou, então. Supervisionando. Com o olho vermelho que ele limpava de vez em quando com o lado da manga.

Havia algo bonito demais naquela bagunça organizada. Homens que mal se falavam trabalhando lado a lado, rindo de coisa boba, subindo no telhado e se preocupando uns com os outros. Crianças carregando balde de cimento em fila, sério que nem adulto. Uma criança de uns seis anos — o neto da Geralda — que insistiu em colocar um tijolo no lugar e que o Edivaldo deixou, com a paciência que os velhos têm com os pequenos.

O almoço foi servido às doze, no quintal, com mesas improvisadas de cavaletes e tábua. Arroz, feijão, frango, uma macarronada que a Cida havia acordado às cinco para fazer. Dezessete pessoas em volta, com pratos misturados na mão, comendo de pé ou sentadas no chão porque as cadeiras não davam para todos.

Seu Vicente almoçou no meio deles, quieto. Às vezes alguém dizia alguma coisa para ele — uma anedota, uma pergunta sobre a horta, uma memória de quando compravam tomate com ele — e ele ria com aquele riso de quem está surpreso com a própria alegria.

Ao fim do dia, quando o sol já estava baixo e as ferramentas iam sendo guardadas, a casa tinha telhado novo, a parede lateral recebeu uma mão de cal, e a horta — que a chuva havia bagunçado — estava replantada e tutorada com estacas. Havia mais flores do que antes, porque a Silvana havia trazido mudas que não tinham espaço no apartamento dela e aproveitou o sábado para plantar.

Seu Vicente ficou na varanda até o último vizinho ir embora. Despediu-se de cada um com um aperto de mão demorado que dizia mais do que qualquer discurso. Quando o último carro sumiu na esquina, ficou olhando a rua vazia por um tempo.

Depois entrou na casa que cheirava a massa fresca e tintura e comida feita com pressa e carinho. Passou a mão na parede nova, olhou para o teto que não tinha mais céu no meio. Pegou uma das fotos da Creusa, a que estava menos molhada, e a colocou de volta no lugar.

Hoje a horta está mais bonita do que antes da tempestade. As flores da Silvana cresceram de vez. E Seu Vicente continua contando causos na calçada, só que agora tem um novo na coleção — o do dia em que descobriu que todas aquelas casas ao redor da sua eram, na verdade, uma casa só.

Telhado, a gente conserta com telha e cimento. O que aquele sábado construiu dentro dele não tem nome de material de construção. Tem nome de comunidade, de sorte, de vizinhança que ainda sabe o que essa palavra significa.

Publicado por Relatos Humanos em . Relatos Humanos — boas histórias para inspirar.

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