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O Banquinho Azul do Seu Geraldo

Rodrigo entrou na sapataria do Seu Geraldo sem saber que ia sair de lá diferente. O velho sapateiro tinha uma regra estranha — consertava de graça o sapato de quem estava indo para uma entrevista de emprego. Mas o preço cobrado não era em dinheiro.

Por Relatos Humanos
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O Banquinho Azul do Seu Geraldo

O sapato estava com a sola rasgada e eu tinha entrevista daqui a duas horas.

Era uma terça de agosto, o tipo de manhã quente que cola a camisa nas costas antes mesmo de você sair de casa. Eu tinha vinte e seis anos, oito meses sem trabalho fixo e um tênis Society amarrotado que não combinava com a vaga de assistente administrativo que eu havia conseguido depois de mandar currículo para não sei quantas empresas. Depois de um tempo você para de contar porque contar dói mais do que ajuda.

A sapataria do Seu Geraldo ficava num corredor do mercado municipal de Patos de Minas, espremida entre uma barraca de temperos e uma loja de armarinhos. A placa de madeira estava desbotada, as letras pintadas à mão em azul que já era mais cinza do que azul. Entrei porque era o único lugar aberto e porque eu não tinha outra opção.

O velho estava curvado sobre uma bota feminina, batendo pequenos pregos com uma precisão que parecia coisa de relojoeiro. Tinha uns setenta anos, cabelo branco ralo penteado com brilhantina, óculos de aros grossos que desciam pelo nariz sem que ele se incomodasse em empurrá-los de volta. Na bancada ao lado havia cola, linha encerada, uma faca de ponta curva e uns cinco pares de sapatos esperando a vez. O cheiro de couro e de cola misturados era forte, mas não era ruim. Era o cheiro de coisa consertada.

— Boa tarde — eu disse, mesmo sendo manhã. O nervoso me atrapalha.

Ele levantou os olhos sem erguer a cabeça.

— Bom dia. O que houve?

Mostrei o tênis. A sola tinha se soltado desde a ponta até quase o meio, e quando eu andava rápido ela batia no chão fazendo um barulho que me envergonhava. Ele largou a bota, pegou o tênis nas duas mãos, virou de cabeça para baixo, apertou a sola com o polegar, passou o dedo na racha, inclinou contra a luz de uma lâmpada pelada que pendia do teto.

— Isso aqui eu resolvo em vinte minutos — disse. — Senta ali.

Apontou para um banquinho de madeira pintado de azul, encostado na parede ao lado de uma caixa de sapatos velhos. A tinta estava descascada nas bordas, mostrando a madeira crua embaixo, mas o assento era coberto com um retalho de couro surrado e bem macio, do jeito que só fica depois de muita gente ter sentado.

Sentei descalço, o tênis na mão dele, olhando o relógio no celular. Uma hora e quarenta e oito minutos.

Ele perguntou, sem tirar os olhos do trabalho:

— Pra onde você vai com esse sapato?

Achei a pergunta estranha. Mas respondi.

— Entrevista de emprego. Daqui a duas horas, na Contábil Horizonte, aqui perto.

Ele assentiu devagar, como se a informação fosse importante, como se estivesse anotando mentalmente.

— Que vaga?

— Assistente administrativo. Terceiro processo seletivo que faço lá. Fui eliminado nos dois primeiros na fase de análise de currículo. Dessa vez chamaram pra entrevista presencial.

Ele não disse nada por um tempo. O martelo bateu três vezes curtas e certeiras. Depois:

— Sabe quanto vai me custar isso?

Franzi o cenho. Não tinha placa de preço nenhuma, nenhuma lista na parede.

— Não. Quanto?

— Nada — ele disse, simplesmente. Nem levantou os olhos.

Fiquei olhando pra ele.

— Como assim, nada?

— De graça. Pra quem tá indo pra entrevista, conserto de graça. É minha regra há mais de vinte anos. Mas tem uma condição.

— Qual condição?

— Me conta a história. Não da entrevista. A história de antes. Por que você tá precisando tanto desse emprego.

Ia dizer que era coisa particular, que eu mal conhecia o homem, que eu não tinha tempo pra papo. Mas tinha algo nele — uma calma que não era indiferença, uma atenção nos olhos por trás dos óculos tortos que me fez sentir que a pergunta era de verdade — que me fez começar a falar.

Contei que tinha me formado em administração numa faculdade particular, com bolsa do ProUni, depois de trabalhar quatro anos num supermercado para pagar as outras despesas que a bolsa não cobria. Contei que meu pai tinha morrido no terceiro semestre do curso, infarto fulminante numa tarde de sexta-feira, e que eu tinha assumido parte das contas da casa sem contar pra ninguém da faculdade porque não queria que pensassem que eu ia largar. Que minha mãe lavava roupa pra fora e que eu mandava dinheiro todo mês desde que me formei, mesmo quando trabalhava de motorista de aplicativo porque não achava emprego na área.

Contei que tinha ido às duas entrevistas anteriores de ônibus, com roupa passada na véspera com aquele ferro elétrico velho que faísca mas ainda funciona, e que nas duas vezes a resposta por e-mail tinha sido que eu não tinha experiência suficiente na área. Que eu tinha voltado pra casa com vontade de jogar o diploma pela janela e não tinha falado com ninguém sobre isso porque minha mãe teria chorado e eu não aguentaria ver ela chorar.

O Seu Geraldo ouvia e trabalhava. Ouvia e trabalhava. Aplicava a cola com o pincel, pressionava com os dedos, batia com o martelo, verificava. Quando terminei de falar, ele estava passando uma última camada de cola nas bordas, segurando com firmeza.

— Você sabe por que eu faço isso? — ele perguntou.

— Não — eu disse.

Ele parou. Tirou os óculos, limpou devagar com a barra da camisa de botão que estava aberta no colarinho, colocou de volta, ajustou nos olhos.

— Em 1987, eu tinha uma sapataria maior, ali na rua do Comércio, com dois funcionários e uma vitrine. Ia razoavelmente bem. Aí veio o Plano Cruzado, veio o Collor, veio uma coisa atrás da outra que a gente não controlava. Fui à falência em seis meses. Perdi a sapataria, perdi o carro, quase perdi a casa.

Ele olhou pro teto um segundo antes de continuar, como se estivesse buscando a memória lá em cima.

— Fui pedir emprego numa fábrica de calçados em Franca. Viajei de ônibus, dezesseis horas, com o único par de sapato social que me restou — um sapato que tava com o salto torto, desgastado de um lado. Cheguei lá, o entrevistador olhou pra mim dos pés à cabeça e olhou pro meu sapato. Disse: "A gente não contrata quem não cuida da própria aparência." Me mandou embora sem nem ouvir o que eu tinha a dizer sobre o ofício que eu conhecia melhor do que ele.

Ficou em silêncio por alguns segundos. Lá fora, no corredor do mercado, uma criança corria e gritava de alegria por alguma coisa que a gente não via daqui.

— Voltei de Franca sem emprego e com a alma no chão. Passei um mês sem conseguir me levantar de manhã direito, sem vontade de nada. Minha mulher, a Nair, foi quem segurou a casa naquele período, ela com o trabalho de costureira. Nunca esqueci aquele sapato, aquele salto torto. Não era preguiça, não era desleixo. Era pobreza. Era uma falência que eu não escolhi. E aquele homem me julgou em três segundos.

Ele me entregou o tênis. A sola estava prensa, firme, sem nenhuma folga. Parecia novo.

— Quando reabri aqui, menor, com o dinheiro que a Nair guardou, decidi que nenhum rapaz ou moça ia perder uma oportunidade por causa de um sapato ruim enquanto eu pudesse fazer alguma coisa a respeito. Então o banquinho azul virou minha regra. Quem senta ali e me conta pra onde vai — conserto de graça. É o que eu posso dar.

Peguei o tênis. Não sabia exatamente o que dizer, então fui honesto.

— Por que você quer ouvir a história? Não bastava só consertar?

Ele deu um sorriso pequeno, o primeiro desde que eu entrei.

— Porque todo mundo que vai pra entrevista tá carregando um peso. E às vezes o peso pesa mais que o sapato ruim. Quando você conta pra alguém, fica um pouco mais leve. Já vi gente sair daqui e passar em entrevista que tinha certeza que ia perder. Não sei se é o sapato ou se é a conversa. Acho que é as duas coisas juntas.

Saí da sapataria com o tênis consertado e algo diferente no peito. Não era confiança exatamente, não era aquele estado de euforia falsa que a gente finge quando precisa parecer positivo. Era outra coisa — a sensação de ter sido visto de verdade, por alguém que não me devia nada e que mesmo assim se importou o suficiente pra perguntar.

Na entrevista, quando a gerente de RH pediu que eu me apresentasse, eu contei uma parte da verdade que nunca tinha contado em processo seletivo antes: a história do meu pai, os anos de supermercado e de aplicativo, o que eu pretendia fazer de diferente na área se me dessem a chance. Falei sem preparar, sem aquelas respostas decoradas de site de emprego.

Ela ficou quieta por alguns segundos depois que terminei.

— Essa é a resposta mais honesta que eu ouvi essa semana — ela disse.

Comecei na segunda-feira seguinte.

Voltei à sapataria no sábado para agradecer. O Seu Geraldo estava no mesmo lugar, curvado sobre um sapato infantil, o martelo batendo devagar e com cuidado. Quando contei que tinha passado, ele não fez festa. Só levantou os olhos por cima dos óculos tortos e assentiu, como se já soubesse ou como se tivesse esperando a notícia com a mesma calma com que esperava a cola secar.

— O banquinho azul tem cem por cento de aproveitamento — ele disse, e voltou ao trabalho.

Eu ria, mas ele estava falando sério.

Às vezes a gente precisa de alguém que ouça antes de ajudar.

Publicado por Relatos Humanos em . Relatos Humanos — boas histórias para inspirar.

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