Ricardo era dono de varias empresas e tinha uma certeza: quem era pobre era porque nao se esforcava. Dizia isso em jantares, com a taca na mao. Um amigo, cansado, propos uma aposta: — Passa um dia trabalhando com o Severino, o catador que recolhe o lixo reciclavel aqui do bairro. So um dia. Se voce continuar pensando igual, eu te pago um jantar caro. Topas?
Por orgulho, Ricardo topou. Na manha seguinte, de roupa velha, encontrou Severino e seu carrinho. Comecaram antes do sol nascer. Ricardo achou que seria facil. Nao foi. O carrinho pesava. O sol castigava. As costas doiam. E havia algo pior que o cansaco fisico: os olhares. As pessoas desviavam, torciam o nariz, fingiam que ele e Severino nao existiam. Ricardo, acostumado a ser tratado com reverencia, sentiu na pele o que era ser invisivel.
No almoco, Severino dividiu sua marmita simples com o "novato", sem saber quem ele era. Contou da vida: dos filhos que estudavam, do orgulho de sustentar a casa com trabalho honesto, do respeito que tinha pela propria labuta. — Muita gente acha que isso aqui e pra vagabundo — disse Severino, rindo. — Mas vagabundo nenhum acorda quatro da manha pra puxar carrinho.
Ao fim do dia, Ricardo estava destruido. Mas algo nele tinha mudado mais que o corpo. Ele tinha visto dignidade onde antes so via fracasso. Tinha sentido, por algumas horas, o peso que milhoes carregam todo dia.
Voltou para casa em silencio. No dia seguinte, ligou para o amigo: — Voce ganhou a aposta. Mas eu ganhei mais. Ricardo nao parou ai. Criou um programa de coleta na sua empresa que contratou dezenas de catadores com carteira assinada. O primeiro da lista foi Severino.
Quando perguntam o que mudou o empresario durao, ele responde: — Um dia. Um dia empurrando um carrinho me ensinou o que anos de dinheiro nao tinham ensinado: ninguem e melhor que ninguem. So tem quem teve sorte e esqueceu disso.