O aplicativo tocou às quatorze e vinte e dois, e eu já sabia o pedido antes de abrir a tela.
Combo frango simples, sem batata, suco de caju de caixinha. O mesmo da segunda e do dia vinte e três do mês anterior. O endereço era aquele sobrado antigo na Rua Ipê Amarelo, em Uberlândia, com uma amendoeira na calçada que perdia folha demais no começo do inverno. Eu conhecia a rua de cabeça porque tinha entregado lá quatro vezes já, sempre pra mesma pessoa.
Dei aquela acelerada de sempre pelo quarteirão da Avenida João Naves, desviando do buraço que a prefeitura promete tapar há dois anos, e cheguei em oito minutos.
A porta se abriu antes de eu bater.
A Dona Celeste tinha uns setenta e cinco anos, talvez mais, o tipo de velhice que não tem pressa de si mesma. Cabelo branco curto, aqueles óculos de armação tartaruga que deixaram de ser moda e voltaram a ser, um avental com estampa de folha de samambaia que devia ser tão antigo quanto eu. Ela ficava parada na soleira, as mãos juntas na frente, como se estivesse esperando não uma marmita de isopor mas alguma coisa que ela tinha encomendado faz tempo e que finalmente chegou.
— Boa tarde, meu filho — ela disse, e pegou a sacola com os dois braços, devagar e com cuidado como quem pega alguma coisa pesada.
Era um combo frango. Pesava menos de meio quilo.
— Boa tarde, Dona Celeste — eu disse. Ela já tinha me falado o nome no segundo dia, de forma tão natural que ficou.
Ela me entregou o envelope. Sempre tinha um envelope pardo dobrado, do tipo que se compra no papelão da escola. Dentro: a gorjeta em dinheiro, sempre além do que os outros me davam, e um bilhete escrito à caneta azul, letra grande e arredondada, de quem aprendeu caligrafia quando caligrafia era uma disciplina de verdade.
Naquele dia eu não li o bilhete na hora. Coloquei no bolso da mochila e fui pegar a próxima corrida.
Li no semáforo da Getúlio Vargas.
"Você atendeu meu chamado hoje de novo. Espero que seu dia esteja sendo bom. Que Deus abençoe o seu trabalho e a sua família. — Celeste."
Fiquei olhando aquilo até o semáforo abrir e o cara atrás buzinar.
No dia seguinte, entre uma entrega e outra, falei com o Ribeiro, que trabalhava no mesmo quadrante que eu.
— Você já entregou pra uma Dona Celeste na Rua Ipê Amarelo?
— A velha do sobrado? Já. Uma vez. Por quê?
— Ela te mandou bilhete?
Ele olhou pra mim com a cara de quem não sabe se a pergunta é séria.
— Que bilhete?
Mostrei o envelope. Ele leu, devolveu, ficou um segundo pensando.
— Mano, ela é viúva. Mora sozinha lá. A menina que fazia faxina pra ela parou de ir tem uns seis meses. Eu sei porque minha tia mora dois lotes acima.
Peguei isso e não larguei.
Fui entender com o tempo. Na terceira semana, quando apareceu o quinto pedido no aplicativo e eu aceitei antes do ícone parar de piscar, me dei conta que estava aceitando de propósito. Podia deixar cair pra outro motoboy. O aplicativo distribui corrida pra quem está mais perto, e na Rua Ipê Amarelo tinha sempre alguém mais perto do que eu. Mas eu ficava olhando pro canto da tela até aparecer aquele endereço e então deslizava rápido.
Não parei pra pensar muito nisso na época. Só fazia.
Quando cheguei, a Dona Celeste estava de novo na porta. Dessa vez ela estava com uma caixinha de biscoito de polvilho na mão, daquelas que se compra no mercadinho de bairro.
— Hoje eu fiz uma besteirinha pra você também — ela disse, me entregando a caixa junto com o envelope.
Olhei pra caixa de biscoito. Olhei pra ela.
— Dona Celeste, a senhora não precisava.
— Eu quis. Aceita, que biscoito que fica muito tempo esperando a gente fica duro.
Aceitei. Não sabia bem o que dizer, então disse a única coisa que veio:
— A senhora tá bem? Tá precisando de alguma coisa além do pedido?
Ela sorriu. Não aquele sorriso rápido de quem quer terminar logo a conversa — aquele sorriso devagar, de quem tem tempo.
— Estou bem, filho. Às vezes a tarde fica um pouco comprida, sabe como é. A gente fica esperando alguma coisa acontecer e quando vem uma campainha, ainda que seja entrega, o dia ganha um outro ritmo.
Fiquei parado um segundo. A amendoeira balançava levemente. Na casa do lado passava cheiro de fritura, devia ser a hora do almoço tardio de alguém.
— Posso tomar um cafezinho com a senhora? Só cinco minutos, se não incomodar.
Ela me olhou com uma expressão que não sei descrever bem. Não era surpresa — era mais como quando a gente espera uma chuva que demora, e quando começa a cair a gente não se surpreende, se alivia.
— Pode entrar — ela disse.
A sala era daquele jeito que sala de avó costuma ser em cidade do interior: aparador com photos emolduradas, uma toalha de crochê sobre a mesa de centro, um ventilador de torre no canto que estava ligado mesmo com o inverno chegando. Tinha um cachorrinho pequeno e gordinho dormindo numa almofada ao pé do sofá. Ela viu eu olhando.
— É o Totó. Ele é surdo, não vai latir.
Tomamos café na mesa da cozinha. Café forte, coado na hora, daquele que pinga devagar. Ela tinha uma xícara com estampa de girassol e me deu a sem estampa, a comum, o que me pareceu um gesto de intimidade às avessas: guardar a mais bonita pra si.
Me contou que o marido, o Seu Hilário, tinha morrido há quatro anos de uma complicação pós-cirurgia. Que os filhos moravam em São Paulo e no Paraná, que ligavam toda domingo, que eram bons filhos, que ela não queria mudar pra perto deles porque a casa era dela e era do Hilário e ela precisava das manhãs na janela vendo a amendoeira.
— O Seu Hilário gostava dessa árvore? — eu perguntei.
— Ele odiava — ela riu, um riso curto e genuíno. — Dizia que sujava calçada. Mas eu amava, então ele nunca falou em cortar. É assim que funciona quando dois gostam um do outro de verdade: você guarda a árvore que o outro gosta, mesmo que encha de folha.
Olhei pro relógio. Vinte e dois minutos. Tinha três corridas paradas esperando.
— Dona Celeste, eu preciso ir.
— Vai, vai. Obrigada pela visita.
Peguei a mochila. Quando ia sair, ela me chamou.
— Marcão.
Virei.
— Você sabe por que eu peço o combo frango?
— Não sei.
— Porque é o mais barato do cardápio. — Ela disse isso sem nenhum constrangimento, com a mesma naturalidade com que diria o nome de uma rua. — Não é que eu não possa pedir outra coisa. É que eu peço o mais barato porque o pedido não é pela comida.
Fiquei olhando pra ela.
— Eu peço porque o aplicativo manda alguém aqui. E quando vem alguém aqui, o dia tem um som diferente. Uma campainha, uma voz, alguém que me chama de Dona Celeste em vez de me ignorar na calçada.
Não soube o que responder. Ela tampouco esperava resposta.
— Você foi o primeiro que perguntou se eu precisava de alguma coisa. Os outros são bons também, mas você foi o primeiro.
Saí com aquilo travado no peito.
Depois disso, quando a Rua Ipê Amarelo aparecia na tela, eu aceitava sempre. E quando chegava, se não havia corrida urgente esperando, eu batia na campainha e perguntava se ela tinha cinco minutos pra um café. Às vezes ela tinha preparado biscoito. Às vezes só tinha o café. Uma tarde tinha um pedaço de bolo de banana que ela fez porque "a tarde estava fria e bolo de banana aquece a casa".
Os bilhetes continuaram. Sempre com uma frase, sempre fechados no envelope pardo, sempre aquela letra arredondada de escola antiga.
"Você tem um coração bom. Não deixe o mundo convencer você do contrário."
"Hoje estava mais fácil porque sei que você vem."
"Cuida de você que é o único Marcão que eu tenho."
Esse último ficou colado no painel da moto por três semanas. Até a chuva apagar.
Não conto isso pra dizer que sou bom. Conto porque tem um tipo de solidão que a gente não enxerga de longe — ela não grita, não pede socorro, não tem cara de pedido. Tem cara de combo frango simples às catorze e vinte e dois, pedido toda semana, com gorjeta justa e um bilhete de caligrafia.
Às vezes a gente só precisa que alguém pare cinco minutos.