O que eu vi primeiro, quando dobrei a curva do igarapé, não foi a escola. Foi o braço do Dirceu, estendido da janela, acenando com tanta força que a canoa balançou na esteira da onda que ele fez.
Ele tinha onze anos e morava do outro lado do rio. Nos dois dias em que a enchente veio — rápida, sem pedir licença, como sempre faz em Altamira do Norte — eu havia ficado presa em casa, olhando pela grade da varanda o nível da água subir pela rua até encobrir o poste da esquina. Meu marido disse que eu não sairia. Disse que eu tinha cinquenta e um anos, que a correnteza estava forte, e que dar aula para ninguém não valia o risco. Eu disse que sim.
Mas eu estava pensando em outra coisa.
Na manhã do terceiro dia, enquanto ele ainda dormia, peguei a canoa do vizinho Sebastião, amarrei o tecido de borracha do avental da cozinha no banco para não molhar a calça, e fui.
A escola estava com um metro e meio de água dentro. As mesinhas flutuavam viradas. Os cartazes que eu havia colado na semana anterior — os estados do Brasil, a tabela de multiplicação, o mapa mundi que o prefeito havia mandado de Belém — iam rodando devagar pela correnteza, já borrados, as cores escorrendo como se o Brasil inteiro estivesse derretendo. O cheiro era de terra molhada e de madeira velha cedendo.
Mas os alunos estavam nas janelas.
Não todos — oito dos vinte e dois haviam saído com as famílias para o abrigo no ginásio da cidade. Mas estavam lá: Dirceu, as irmãs Manoela e Cássia, o Toninho de Parintins que era novo na turma, a Gleice, o Rogério, o Anderson que vivia dormindo nas aulas, e a Patrícia, que tinha o cabelo sempre preso com uma fita amarela e que nunca havia perdido um dia de escola na vida. Oito pares de pé pendurados pelas janelas, como se a escola fosse um barco esperando alguém assumir o leme.
"Professora Neuza!", o Dirceu gritou. "A senhora trouxe tarefa?"
Eu ri. Aquele menino.
Encorei a canoa na parede externa da escola e subi pela janela com ele me puxando pelo braço. Dentro, as crianças se amontoavam no parapeito, os pés longe da água, olhando para mim como se eu houvesse trazido algo que ainda não mostrara.
Não havia trazido nada. Não havia lápis, não havia caderno, não havia folha. Havia trazido a mim mesma, e percebi naquele momento que talvez fosse o suficiente.
"A gente vai ter aula hoje?", a Patrícia perguntou. Tinha a fita amarela molhada, mas penteada igual.
"Vai", eu disse, sem saber ainda como.
Sentamos todos no parapeito da janela maior, os pés pendurados do lado de fora, a água lambendo a parede embaixo de nós, morna, barrenta, cheirando a barro e peixe. Eu comecei com o que sabia de cor: a tabuada. Batíamos palma no ritmo: seis vezes seis, trinta e seis. Seis vezes sete, quarenta e dois. O Anderson, que dormia nas aulas, sabia de cor e gritava antes dos outros, todo orgulhoso, como se a enchente tivesse destampado nele alguma coisa que a sala fechada tapava.
Então passei para a leitura. Pedi para cada um me contar o que havia visto durante a enchente, com começo, meio e fim, como uma história. O Toninho contou que a vaca do avô havia subido num monte de terra e ficado dois dias sem descer, berrando de hora em hora, até que o avô foi de bote e a convenceu com um punhado de milho. A Manoela contou que viu um sofá passando flutuando pelo quintal, com um gato em cima, sentado quieto, como se fosse dono do mundo. Fui corrigindo: "Aí o gato 'tava'? Aí o gato 'estava'." Eles repetiam, rindo. A Gleice contou que o avô ficou na rede até a água chegar no joelho dele, porque não acreditava que o rio fosse subir tanto. "E ele sempre faz isso", ela disse, com a precisão grave de quem cresceu lidando com a teimosia dos mais velhos.
No segundo dia, voltei.
No terceiro também.
Passamos a fazer isso: eu recolhia uma criança com a canoa, depois outra, cruzávamos o rio e íamos parando em cada casa que ainda tinha gente. A canoa do Sebastião mal aguentava cinco de uma vez, e ele começou a me emprestar de graça porque, disse ele, "se a professora vai, eu ajudo". Às vezes vinha com a gente, remando em silêncio e cantarolando baixinho, como se levar crianças para aprender fosse a coisa mais natural do mundo depois de uma enchente.
Numa tarde, parei na casa do Dirceu para buscá-lo. A mãe veio à janela. Era uma mulher pequena, de rosto cansado, com as mãos calejadas de quem trabalha no barco de pesca do marido desde menina. Ela me olhou com uma expressão que eu não soube ler de imediato.
"Professora", ela disse, "a senhora sabe o que esse menino fez quando o rio entrou em casa?"
Eu disse que não.
"Ele pegou o caderno escolar dele e enfiou debaixo da camisa. Ficou assim, com o caderno abraçado no peito, a água subindo até a cintura, esperando o pai vir buscar ele de bote. O caderno saiu seco."
Ela piscou rápido, como quem afasta uma coisa que não quer deixar cair.
"Um caderno", ela disse de novo, sacudindo a cabeça devagar, como quem ainda está tentando entender o que aquilo significa.
Quando o Dirceu desceu e entrou na canoa, eu não disse nada. Fiquei olhando para a camisa dele, aquela camisa azul de botões que ele usava toda vez que havia "dia de apresentação". Ele percebeu que eu estava olhando e, sem que eu pedisse nada, puxou a barra da camisa para cima, revelando o caderno preso entre o tecido e a barriga: verde, com a etiqueta de nome que eu mesma havia dado no começo do ano, colada torta, como sempre ficava quando ele colava.
"Não ia deixar molhar, professora", ele disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Não respondi. Respirei fundo, olhei para o rio largo e marrom daquela tarde, e não disse uma palavra.
A enchente durou três semanas. Durante esse tempo, dei aula em cinco varandas, dois barcos parados à sombra de uma mangueira, e uma vez, memorável, no telhado da casa do seu Benedito, que era o mais alto da rua e havia virado ponto de encontro. Levamos a lousa portátil que eu guardava no carro — a única coisa que eu havia salvo antes da água entrar na escola — e ficamos lá em cima, de tarde, com o sol nas costas e o rio transbordado embaixo, resolvendo divisão com giz branco num céu azul.
Quando a água baixou, a escola estava coberta de lama. Uma lama fina, cinza, que grudava na sola do sapato e ficava dias cheirando a fundo de rio. Passamos uma semana limpando, pais e professores juntos, com rodo e balde e panos velhos que ninguém queria mais em casa. Os cartazes tinham ido. As mesinhas estavam tortas, algumas com as pernas abertas como bichos que tombaram. A lousa grande havia tomado umidade e começou a descascar nas bordas.
Mas no primeiro dia de aula de volta, quando eu pedi para cada um colocar o material em cima da mesa, o Dirceu foi o único que abriu o caderno e ele estava limpo. Nem uma página dobrada, nem uma mancha de umidade, nem o rastro de uma gota sequer. As lições da semana anterior — frações, as capitais do Norte — estavam lá, com a letra dele, que era grande e firme e um pouco para a esquerda, como sempre.
Os outros olharam para aquele caderno como se olhassem para um milagre pequeno.
Talvez fosse.
Até hoje, quando passo pelo rio no começo do ano letivo e vejo o nível da água subindo mais do que devia, não é o prédio da escola que me preocupa primeiro. É se as crianças têm onde guardar o que aprenderam — dentro dos cadernos, dentro da cabeça, debaixo da camisa, onde for.
O Dirceu está na sétima série agora. Semana passada me mandou uma foto pelo celular da mãe: ele com um caderno novo, de capa verde igual ao velho, com o nome escrito em letra grande na etiqueta. Do lado, uma carinha de risada desenhada a caneta, torta, exatamente como ele sempre foi.
"Continuando a série", ele escreveu.
Nenhum rio leva o que a gente guarda com cuidado.