Quando o porto fechou, disseram que o farol não servia mais. Os navios tinham arrumado outras rotas, o cais virou ruína, e a prefeitura cortou a verba da manutenção. "Pode apagar", avisaram a Seu Bento, o faroleiro. "Ninguém mais passa por aqui."
Mas Seu Bento não apagou. Subia todas as noites os cento e oitenta degraus, com o joelho reclamando a cada um, e acendia a luz como fazia havia quarenta anos. Os poucos moradores que restaram na vila achavam que era teimosia de velho. Talvez fosse. Mas ele dizia, quando perguntavam: "Luz acesa não é para quem está perto. É para quem ainda pode chegar."
As pessoas riam, com carinho. Um farol para ninguém. Que desperdício de óleo e de joelho.
Até que veio aquela noite. Uma tempestade daquelas que o mar guarda para lembrar os homens do seu tamanho. Vento, chuva deitada, ondas que engoliam a praia. E, no meio do breu, um barquinho de pesca perdido, longe da rota, sem rádio, sem rumo, com três pescadores rezando.
Foi a luz do farol — aquele farol que não servia para nada — que eles enxergaram primeiro. Um ponto teimoso na escuridão, girando, insistindo, dizendo sem palavras: por aqui, por aqui, ainda existe terra firme. Os três remaram para a luz com a força do desespero e da esperança misturadas. Encalharam na areia exaustos, mas vivos.
No dia seguinte, a vila inteira subiu os cento e oitenta degraus para apertar a mão de Seu Bento. Ele recebeu a todos sem dizer "eu avisei", porque os homens de verdade não precisam disso. Só apontou para o mar, ainda revolto, e disse baixinho: "A gente nunca sabe quem ainda está tentando chegar."
O farol continua aceso até hoje. A prefeitura, depois daquela noite, achou a verba. Mas Seu Bento garante que não foi a verba que manteve a luz — foi a recusa, simples e teimosa, de desistir de quem ainda podia precisar dela.