Seu Genaro tinha a mesma banca de frutas e verduras na feira havia trinta anos. Era conhecido pelo preco justo e pelo bom humor. Mas tinha um costume que poucos conheciam, porque ele fazia questao de fazer no silencio.
No fim de cada feira, quando a maioria dos feirantes jogava fora as frutas mais maduras, os legumes amassados, tudo que nao venderia, Seu Genaro separava o que ainda estava bom em caixas. E, em vez de descartar, distribuia para quem precisava: a senhora que catava papelao, o morador de rua da esquina, as familias humildes que esperavam discretamente o fim da feira.
Ele nunca alardeava. Nao queria foto, nao queria elogio. — Comida e pra alimentar gente, nao pra apodrecer no lixo — dizia, quando alguem perguntava. Para ele, era simplesmente o certo a fazer.
Com o tempo, o gesto silencioso virou exemplo. Outros feirantes comecaram a imitar. Em vez de descartar, passaram a separar para Seu Genaro distribuir. A banca dele virou ponto de coleta. O que era desperdicio virou jantar para dezenas de familias toda semana.
Um dia, uma jovem se aproximou da banca. Estava bem vestida, com um cracha de medica. — O senhor nao me reconhece, ne? — perguntou, sorrindo com os olhos marejados. Seu Genaro nao reconhecia. — Quando eu era crianca, minha mae e eu esperavamos o fim da feira pra pegar as frutas que o senhor dava. Muitos dias, foi a unica comida que a gente teve. Eu nunca esqueci.
Seu Genaro emudeceu. A menina que pegava suas frutas amassadas tinha se tornado medica. — O senhor me alimentou pra eu chegar ate aqui — disse ela. — Hoje eu vim te agradecer.
O velho feirante, que nunca quis reconhecimento, chorou ali, no meio das frutas. — Eu so dei o que ia pro lixo — disse, humilde. — Pode ser lixo pro senhor — respondeu a medica. — Pra gente, foi o comeco de tudo.