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O Que Estava Amarrado no Ipê

Num bairro de Ribeirão Preto, alguém começou a amarrar bilhetinhos anônimos nos galhos das árvores da Praça da Biquinha — palavras pequenas, escritas à mão, para ninguém e para qualquer um. Marcos encontrou um deles no dia em que havia decidido que não aguentava mais. O que aconteceu depois mudou a trajetória dos dois.

Por Relatos Humanos
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O Que Estava Amarrado no Ipê

O bilhete estava preso com um barbante de crochê cor de musgo, num galho baixo do ipê roxo da Praça da Biquinha, em Ribeirão Preto.

Eu quase não vi. Ia passando com a cabeça baixa, mãos enfiadas nos bolsos do moletom cinza que eu usava fazia três dias sem lavar, a consciência apagada como se alguém tivesse tirado o fusível. Era uma quinta-feira de julho, seis da tarde, o sol caindo torto nas copas das árvores e eu sem ter para onde ir — ou com vontade nenhuma de ir para nenhum lugar.

Tinha sido demitido da gráfica na segunda-feira. Décimo sétimo ano naquele emprego. A carta de rescisão tinha o meu nome digitado errado: Marcos A. Souza, com um A que não existe no meu nome do meio. Nem isso acertaram.

O barbante de crochê era verde e estava bem amarrado. O papel era de caderno, dobrado em quatro.

Não sei por que parei. Talvez porque parar era mais fácil do que continuar andando sem destino. Desamarrei o bilhete com cuidado, desdobrei.

A letra era redonda, de caneta azul, um pouco irregular, como de quem escreve rápido mas não descuidado.

*"Você chegou aqui hoje. Isso já foi difícil. Eu sei que sim. O amanhã não precisa ser resolvido agora — ele existe, mas não é urgente. Respira primeiro."*

Fiquei parado na frente do ipê por um tempo que não soube medir.

Não era uma mensagem profunda. Não tinha assinatura, não tinha promessa de milagre, não tinha o tom pasteurizado das frases motivacionais que a minha ex-chefe colava na parede da sala de reuniões. Era uma frase de alguém que parecia saber, de verdade, o que é chegar num lugar sem saber por que foi.

Dobrei o papel e guardei no bolso do moletom.

Fui pra casa. Aqueci um macarrão instantâneo que estava vencendo na segunda-feira daquela semana. Comi em pé na beira da pia, olhando pela janela da cozinha pro muro de azulejo branco do vizinho.

Dormi.

Na manhã seguinte, acordei antes do alarme pela primeira vez em três dias. Não porque estava bem — não estava — mas porque tinha dormido de verdade, sem o sono raso e agitado dos dias anteriores, aquele sono de cachorro que late sozinho no escuro.

Voltei à praça no fim da tarde.

Havia outro bilhete no mesmo ipê. Diferente do de ontem — o papel era amarelo desta vez, a letra menor, mais contida.

*"Hoje eu vi um menino tentar pegar um pombo e o pombo ganhou. Foi a melhor coisa que aconteceu na semana. Às vezes a alegria não avisa que vem — ela simplesmente aparece, menor do que a gente esperava."*

Ri. Pequeno, quase nada, mas ri.

Passei a voltar à praça todos os dias.

Havia entre quatro e oito bilhetes espalhados pelas árvores — no ipê roxo, numa paineira mais ao fundo, num sibipiruna perto do banco de concreto onde as senhoras do bairro jogavam baralho nas manhãs de sábado. Alguns bilhetes eram longos, quase um parágrafo. Outros tinham uma frase só.

*"Você não precisa ter certeza de nada hoje."*

*"Tem gente que está torcendo por você e você não sabe o nome dessa gente."*

*"Lembrei hoje da minha avó fazendo pão. Não há cheiro melhor no mundo. Se você tem uma lembrança assim, vai buscar ela agora na memória. É sua. Ninguém tira."*

Comecei a perceber um padrão. Os bilhetes apareciam entre cinco e seis da manhã — antes da praça encher. Quem os colocava tinha que chegar cedo, antes dos primeiros aposentados com cachorro, antes das mães com carrinho. Alguém que acordava com o escuro e vinha até ali com papéis dobrados no bolso e barbante de crochê.

Não me ocorreu de início que fosse uma pessoa só. Mas a letra era sempre a mesma nos bilhetes longos, mesmo com variações de tinta ou papel. E o barbante de crochê tinha sempre o mesmo nó — um laçinho duplo que eu reconhecia porque minha mãe fazia o mesmo pra prender as sacolas do mercado.

Numa segunda-feira de agosto, estava sentado no banco de concreto às cinco e quarenta da manhã com um café que tinha comprado na padaria da esquina. O céu estava cor de chumbo rosado, aquela cor que é feia e bonita ao mesmo tempo, e o frio de julho ainda não tinha saído de Ribeirão inteiro.

A mulher apareceu vinda da rua lateral, pelo lado do postinho de saúde que estava fechado àquela hora.

Tinha uns cinquenta e poucos anos, cabelo curto prateado, calça de moletom azul-marinho e uma blusa de fleece cor de areia. Carregava uma sacola de tecido no ombro e ia olhando para as árvores enquanto andava — com o olhar de quem está verificando o trabalho de uma noite.

Ela parou no sibipiruna mais próximo a mim. Tirou um papel dobrado da sacola, enrolou o barbante, e amarrou no galho com o laçinho duplo que eu já conhecia.

Fiquei quieto. Minha mãe sempre dizia que tem gente que você não pode assustar porque elas carregam algo frágil sem saber que carregam, e interromper é estragar. Não sabia se era o caso. Mas fiquei quieto do mesmo jeito.

Ela terminou o nó, deu um passo atrás, olhou para o bilhete pendurado como quem verifica se está em dia com algo. Então me viu.

Não se assustou. Só olhou, com a expressão levemente embaraçada de quem foi pego fazendo algo que não é vergonhoso mas que não estava planejado ser visto.

— Bom dia — eu disse.

— Bom dia — ela respondeu. Não saiu nem entrou.

Fiz menção de me levantar, achei que ela ia querer que eu fosse embora.

— Pode ficar — ela disse. — Não é nada secreto.

Sentou no outro canto do banco, com a sacola no colo. Ficamos um momento sem falar, olhando para a praça que ia clareando devagar.

— Você é o da gráfica — ela disse, de repente.

Olhei para ela.

— Eu moro na rua de trás. Vi você passar na segunda-feira de manhã, depois que colocaram a nota no portão da empresa. — Ela olhou de frente, sem cerimônia. — Meu filho ficou três meses sem emprego ano passado. Eu sei essa cara.

Não respondi porque não tinha o que responder.

— Eu comecei a colocar os bilhetes quando ele estava nessa fase — ela continuou, com voz tranquila, do tipo que não precisa de drama porque a história já tem peso suficiente sozinha. — Primeiro coloquei pra ele. Depois ele saiu dessa e eu continuei colocando. Não sei pra quem. Pra qualquer um que precise.

— O da sua avó fazendo pão — eu disse.

Ela me olhou.

— Era lembrança real?

— Era — ela disse. — Minha avó em Franca. Toda quarta-feira de inverno.

Silêncio de novo, mas de outro tipo. Não o silêncio de quem não tem nada a dizer — o de quem tem e não precisa dizer ainda.

— Ajudou — eu disse, por fim. — Os bilhetes. Ajudou de verdade.

Ela assentiu, sem alarde, sem o sorriso satisfeito de quem quer crédito. O tipo de assentimento de quem ouve uma informação que confirma algo que precisava confirmar.

— Como você está agora? — ela perguntou.

— Mandei currículo pra seis lugares essa semana. — Fiz uma pausa. — Ainda não estou bem. Mas estou diferente de segunda-feira.

— Diferente já é muita coisa — ela disse.

Nos levantamos quando a praça começou a encher. Ela ajeitou a sacola no ombro. Eu peguei o copo de café que tinha ficado frio sem eu perceber.

— Meu nome é Marcos — eu disse.

— Dorinha — ela respondeu. Estendeu a mão, apertamos.

Ela foi embora pela rua lateral. Eu fui pela avenida, com as mãos nos bolsos do moletom, o sol já saindo por cima dos prédios da direita.

No bolso esquerdo, o bilhete do ipê dobrado em quatro, a borda amassada de tanto que eu tinha colocado e tirado naqueles dias.

*Respira primeiro.*

Três semanas depois, entrei numa transportadora de embalagens no distrito industrial, como auxiliar de impressão. Não era a gráfica — era diferente, menor, com máquinas mais novas que eu precisei aprender do zero. Mas era um começo, e começar é uma coisa que você só consegue quando acredita que o amanhã existe, mesmo sem ter certeza do formato dele.

Nunca contei pra Dorinha que consegui o emprego. Mas passei pela praça numa manhã de setembro e deixei um bilhete no sibipiruna, com um barbante que eu tinha comprado na loja de artesanato da rua do Comércio.

A letra estava irregular. Não sou de escrever à mão.

*"Tem gente que está torcendo por você e você não sabe o nome dessa gente. Eu aprendi isso aqui nessa praça. Obrigado."*

Não sei se ela encontrou. Não precisava saber.

Publicado por Relatos Humanos em . Relatos Humanos — boas histórias para inspirar.

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