A cadeira de balanço ficava na varanda da casa antiga, virada para a rua. Foi ali que o pai de Renato passou os últimos anos, balançando devagar, acenando para quem passava, esperando.
Esperando, principalmente, pelo filho.
Renato havia se mudado para a capital. Construiu carreira, comprou apartamento, encheu a agenda. Ligava para o pai aos domingos, sempre com pressa, sempre prometendo: — Mês que vem eu vou aí, pai. Esse mês tá corrido. E o velho respondia sempre a mesma coisa: — Tá bom, filho. Eu tô aqui. A varanda não vai a lugar nenhum.
Os meses viraram anos. A vida de Renato era um carrossel de reuniões e voos. Quando pensava no pai, sentia uma pontada, mas logo a abafava com a desculpa de sempre: havia tempo. Sempre havia tempo.
Até o telefonema de uma terça-feira de manhã. A vizinha, com a voz embargada, contou que tinham encontrado seu pai na cadeira da varanda, sereno, como quem apenas dormia. O coração havia parado de balançar.
Renato dirigiu as três horas de estrada sem sentir o caminho. Quando chegou, a casa estava cheia de gente que ele mal conhecia — vizinhos, amigos do pai, pessoas que diziam: — Seu pai falava tanto de você. Mostrava sua foto pra todo mundo. Dizia que o filho dele ia vir.
Foi até a varanda. A cadeira estava lá, parada. Sentou-se nela pela primeira vez na vida. E só então percebeu o que o pai via todos aqueles anos: dali se enxergava a estrada inteira, a curva por onde os carros chegavam à cidade. O velho não ficava ali à toa. Ele ficava de olho na estrada — vigiando, todos os dias, por qual curva o carro do filho finalmente apareceria.
Sobre a mesinha ao lado, havia um caderninho. Renato o abriu. Eram anotações simples, com a letra trêmula do pai. "Segunda: liguei pro Renato, deu ocupado." "Quarta: o Renato disse que vem mês que vem. Vou plantar a roseira que ele gosta." "Sexta: a roseira deu a primeira flor. Guardei pra quando ele vier."
Renato fechou o caderno com as mãos tremendo. Foi até o jardim. Lá estava a roseira, carregada de flores vermelhas que ninguém colheu. O pai cuidou dela por anos, para um filho que nunca veio.
Hoje, Renato mora na casa antiga. Largou parte da correria, abriu um pequeno negócio na cidade pequena. Toda tarde, ele se senta na cadeira de balanço, de frente para a estrada. E quando algum filho de vizinho demora a visitar os pais, ele apenas diz, baixinho: — Vai hoje. A cadeira espera, mas a gente nem sempre tem o mês que vem.