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A Cadeira Vazia da Varanda

Ocupado demais para visitar o pai, um filho so entende o valor de uma simples cadeira na varanda quando ja parece tarde demais.

Por Relatos Humanos
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A Cadeira Vazia da Varanda

A cadeira de balanço ficava virada para a rua. Não de lado, não em ângulo — de frente, como uma poltrona de cinema diante da tela. Quem via de fora podia pensar que o velho gostava de observar o movimento. Mas o pai de Renato não ficava ali pelos carros, nem pelos vizinhos passando com cachorro, nem pelas crianças em bicicleta. Ele ficava porque dali se enxergava a entrada da cidade inteira, aquela curva suave da estrada onde os veículos apareciam antes de alcançar a praça. Cada carro que surgisse naquela curva poderia ser o carro do filho.

Manuel passou os últimos dez anos da vida esperando por aquela curva.

Renato havia se mudado para a capital logo depois de se formar, com a pressa dos jovens que acham que o futuro fica sempre mais longe de onde eles estão. Conseguiu emprego numa empresa boa, depois numa melhor, depois numa maior ainda. Comprou um apartamento no décimo andar com vista para um parque que nunca visitava. Encheu a agenda de compromissos e reuniões que davam a sensação de importância. Ligava para o pai aos domingos, sempre que lembrava, sempre com pressa, sempre com a promessa que havia se tornado uma espécie de refrão entre os dois:

"Mês que vem eu vou aí, pai. Esse mês tá corrido."

E o velho respondia sempre do mesmo jeito, com aquela voz que ficou mais rouca com os anos:

"Tá bom, filho. Eu tô aqui. A varanda não vai a lugar nenhum."

Renato ouvia aquilo e sentia uma pontada rápida em algum lugar do peito. Mas a pontada passava depressa, abafada pela reunião que tinha começado ou pelo e-mail que precisava responder. Havia tempo. Sempre havia tempo. Manuel ainda andava bem, ainda fazia a feira toda semana, ainda cuidava do jardim — a roseira que tinha plantado do lado da porta, que todo ano dava flores vermelhas.

O telefonema chegou numa terça-feira de manhã, no meio de uma videoconferência. Era a vizinha, Dona Gertrudes, com a voz que pessoas usam quando precisam dizer uma coisa difícil: baixa, devagar, como se cada palavra custasse. Tinham encontrado Manuel na cadeira da varanda naquela madrugada. Sereno, como quem apenas dormia. O coração havia parado durante o sono.

Renato desligou da reunião sem explicar. Ficou parado no escritório com o telefone na mão por alguns minutos que não soube contar. Depois foi ao banheiro, lavou o rosto com água fria, e começou a fazer as ligações que precisam ser feitas quando isso acontece.

As três horas de estrada ele fez no automático, sem sentir a paisagem mudar. Quando chegou, a casa estava cheia de gente que ele mal reconhecia — vizinhos de décadas, amigos do clube de dominó, a mulher da padaria, o farmacêutico da esquina. Todos diziam a mesma coisa com palavras diferentes: seu pai era uma pessoa boa, seu pai era querido aqui, seu pai falava tanto de você. Mostravam sua foto pra todo mundo. Dizia que o filho dele ia vir.

Renato atravessou a sala e foi até a varanda.

A cadeira estava parada. Ele ficou na frente dela por um momento antes de sentar. Era menor do que lembrava — ou talvez ele tivesse crescido demais, não sabia. Balançou devagar, uma vez, duas, e então parou. Olhou para a rua. Olhou para a curva da estrada.

E foi então que entendeu tudo de uma vez, como se lhe houvessem explicado uma equação que ficara incompreensível por anos.

Dali se via a entrada toda. Cada carro que chegava de fora aparecia primeiro naquela curva suave antes de alcançar o centro. Manuel não ficava na varanda para ver a vida passar. Ficava para ver quem chegava. Ficava vigiando, tarde após tarde, o lugar exato por onde o carro do filho finalmente apareceria.

Renato ficou olhando para a curva da estrada por um tempo longo. Nenhum carro era o dele.

Quando se levantou, notou a mesinha ao lado da cadeira. Em cima, um caderno pequeno de capa dura azul, com o elástico desgastado de tanto ser aberto e fechado. Ele pegou o caderno com cuidado, como se pudesse quebrar, e o abriu.

A letra do pai era trêmula, mas regular — a letra de quem aprendeu a escrever numa época em que a letra importava. As anotações eram simples, datadas, como um diário que não pretendia ser literário.

"Segunda: liguei pro Renato, deu ocupado."

"Quarta: o Renato disse que vem mês que vem. Vou plantar a roseira que ele gosta, assim quando ele chegar já tá bonita."

"Sexta: a roseira deu a primeira flor. Guardei pra quando ele vier."

"Domingo: liguei de novo. Ele disse que o mês ainda tá corrido. Fiz o almoço que ele gosta mesmo assim. Comi sozinho mas fiz do jeito dele."

Havia páginas e páginas assim. Anos de espera anotada com a paciência de quem não perdeu a fé, apenas aprendeu a aguardar. Renato fechou o caderno com as mãos tremendo, foi até o jardim e ficou de pé diante da roseira.

Estava carregada de flores vermelhas. Dezenas delas, abertas, viçosas, perfumando o fim da tarde. Não havia uma única flor colhida. Manuel havia cuidado daquela roseira por anos, esperando pelo dia em que poderia colher uma flor e colocar numa vasilha sobre a mesa antes de o filho sentar para almoçar. E esse dia nunca chegou. As flores viveram e morreram na roseira, temporada após temporada, sem que ninguém as colhesse.

Renato ficou ali até anoitecer, no jardim, de pé entre as flores.

Nos meses seguintes, ele desfez o apartamento do décimo andar, negociou uma saída da empresa grande, e voltou. Não de visita. De vez. Abriu um pequeno escritório de consultoria na cidade, trabalho que podia fazer de qualquer lugar, e escolheu fazer de lá. Reformou a casa do pai sem mudar o que importava: a cadeira de balanço continuou na varanda, virada para a rua.

Toda tarde, Renato senta nela por um tempo. Balança devagar, olha para a curva da estrada, e pensa no pai que ficou ali esperando por anos sem parar de acreditar que o carro um dia apareceria. Quando um vizinho jovem passa com pressa, ou quando ouve alguém no telefone dizendo mês que vem pra um pai velho, ele não fala nada de imediato.

Espera.

E então, com a voz de quem aprendeu uma coisa da pior maneira possível, diz:

"Vai hoje. A cadeira espera, mas a gente nem sempre tem o mês que vem."

Publicado por Relatos Humanos em . Relatos Humanos — boas histórias para inspirar.

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