Quando a avo comecou a esquecer as coisas, foi Bia quem se ofereceu para cuidar dela. Os outros parentes diziam que era trabalho demais para uma jovem, que era melhor um lar especializado. Mas Bia tinha sido criada por aquela mulher e nao a abandonaria agora.
Os dias eram dificeis. A avo, Dona Cota, confundia nomes, repetia perguntas, as vezes nao reconhecia a propria neta. Bia aprendeu a ter paciencia, a responder a mesma coisa dez vezes, a sorrir mesmo quando doia ser tratada como estranha.
Numa tarde, arrumando o quarto, Bia encontrou um bau antigo debaixo da cama. Dentro, dezenas de cartas amarradas com fita. Eram cartas que Dona Cota tinha escrito ao longo da vida — para o marido falecido, para os filhos quando bebes, para a propria neta no dia em que nasceu. A avo, que agora esquecia tudo, tinha registrado cada amor em papel.
Bia comecou a ler aquelas cartas em voz alta para a avo, todas as tardes. E algo bonito acontecia: ao ouvir as proprias palavras, Dona Cota as vezes sorria, os olhos brilhavam, e por alguns minutos parecia voltar. — Eu escrevi isso? — perguntava, encantada, como quem reencontra a si mesma.
Numa dessas leituras, Bia abriu uma carta endereçada a ela, escrita anos antes. Dizia: "Minha Bia, se um dia eu esquecer quem voce e, nao fique triste. O amor que eu sinto por voce nao mora na minha memoria. Mora num lugar que doenca nenhuma alcanca."
Bia chorou abracada a avo, que, sem entender bem o motivo, afagou seu cabelo como fazia quando ela era pequena. — Nao chora, minha filha — disse Dona Cota, num instante de lucidez. — Eu nao sei direito quem voce e hoje. Mas eu sei que eu te amo. Isso eu nunca esqueci.