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A Fila do Posto Não Acabava Nunca

Beatriz tinha setenta anos, paciência de sobra e nada em comum com a adolescente de fone gigante que estava furiosa na fila do posto de saúde ao lado dela. Quando a tarde inteira passou e a fila não avançou, as duas descobriram que tinham mais coisa pra trocar do que pareciam.

Por Relatos Humanos
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A Fila do Posto Não Acabava Nunca

A menina estava xingando o celular quando eu cheguei.

Não xingando em voz alta, que eu tenha ficado sabendo só depois. Mas ela digitava com aquela raiva de dedo que você percebe da distância — o pescoço tenso, os olhos semicerrados, o queixo pra frente como se o aparelho tivesse feito algo pessoal. Tinha uns quinze anos, fone branco gigante tampando as orelhas, blusa preta com uma caveira pequena bordada perto do ombro, cabelo metade verde e metade do próprio castanho, como se tivesse começado a tingir e desistido no meio.

Me coloquei na fila atrás dela. Eram onze e quarenta da manhã, uma quarta-feira de maio naquele calor miúdo de fim de outono em Goiânia que ainda esquenta mais do que devia. A fila do posto de saúde do Setor Pedro Ludovico dobrava pela calçada, entrava pelo corredor lateral e sumia lá dentro. Fui pegar uma senha e a moça do balcão me deu a de número cento e vinte e três. No painel eletrônico piscava, sem muita pressa, o número setenta e oito.

Calculei mentalmente. Aquela tarde não era minha.

A menina na minha frente olhou o mesmo painel, fez a mesma conta, bufou pelo nariz e ficou olhando pro teto por alguns segundos como se estivesse implorando por intervenção divina.

Eu entendo o sentimento. Com setenta anos, já perdi as contas de quantas filas de posto de saúde já enfrentei. Uma vez fiquei quatro horas numa fila em Anápolis para renovar cartão de saúde. Saí de lá com o cartão novo e um chapéu de papel de jornal que uma senhora à minha frente tinha aprendido a dobrar com o filho dela ainda criança.

Me sentei no banco de cimento que havia ali, tirei do bolso o livro que levo sempre na bolsa — hábito de quem aprendeu cedo que o mundo faz a gente esperar muito e que isso não precisa ser perda de tempo.

A menina ficou de pé uns dez minutos, depois olhou pro banco, olhou pra mim, e sentou na outra extremidade, a maior distância possível, com a clareza de quem diz "divido o espaço mas não a conversa".

Respeitei. Li meu livro.

Vinte minutos depois, ela tirou um dos fones.

— O que você tá lendo?

Não disse "a senhora". Disse "você", o que eu achei honesto da parte dela. A maioria dos jovens quando fala com mais velhos força um tratamento formal que soa falso dos dois lados.

Mostrei a capa. "A Vida Secreta das Árvores", do Peter Wohlleben. Já era minha segunda leitura.

Ela inclinou a cabeça pra ler o título.

— Árvores têm vida secreta?

— Comunicam entre si pelas raízes — eu disse. — Partilham nutriente com as vizinhas quando alguma está doente.

Ela ficou olhando pra mim com aquela expressão de não saber se acredita ou não.

— Sério?

— Sério. Tem pesquisa desde os anos noventa. As árvores mais velhas da floresta sustentam as mais novas.

Ela ficou em silêncio um momento.

— Isso é quase bonito — ela disse, e voltou pro celular.

Sorri pro meu livro.

O painel passou do oitenta e dois pro oitenta e três com a velocidade de quem não tem compromisso. Lá pelas doze e meia, quando a fila tinha avançado uns quinze números e o sol estava direto na calçada, ela ficou olhando pro painel por um tempo e disse, sem me olhar:

— Eu vim sozinha porque minha mãe não pode faltar no serviço. Ela fica com medo de eu fazer besteira nas coisas de saúde.

Não soube bem por que ela me contou isso. Talvez porque quando a gente fica muito tempo parado do lado de alguém começa a precisar explicar a própria presença.

— Você consegue lidar? — eu perguntei.

— Consigo. Não sou criança. — Ela disse isso com aquela firmeza de quem já disse muitas vezes e ainda está convencendo a si mesma.

— Sei que não é — eu disse. — Perguntei porque às vezes ajuda ter companhia em fila de posto, não porque você precisaria de ajuda.

Ela me olhou de soslaio.

— Como você se chama? — ela perguntou.

— Beatriz. E você?

— Iza.

Ficamos em silêncio de novo por um tempo. O painel foi para o noventa e um. Uma criança pequena passou correndo pelo corredor e a mãe chamou atrás com aquela voz que mistura susto e amor. O cheiro de alguma coisa sendo esquentada no micro-ondas da recepção chegou até a calçada.

— Beatriz é nome de avó — ela disse, sem crueldade, como observação.

— É nome de Dante também — eu disse. — A Beatriz que ele amou a vida inteira.

— Quem é Dante?

— Um poeta italiano do século treze. Escreveu um poema enorme sobre ir ao inferno, ao purgatório e ao paraíso, e o que o guiou até o paraíso foi o amor por uma mulher chamada Beatriz.

Ela ficou olhando pra mim.

— Você sabe essas coisas assim de cabeça?

— Aprendi na escola. A escola que eu fiz ensinava essas coisas.

— A minha não ensina. — Ela disse isso sem amargura, com uma precisão clínica que me pareceu mais triste do que se tivesse dito com raiva.

— O que sua escola ensina que você gosta?

Ela pensou. Essa pausa me pareceu importante — ela não respondeu de imediato, não disse "nada", que seria a resposta fácil.

— Biologia — ela disse por fim. — Mas minha professora desistiu em março. A substituta não sabe nada.

— O que você gostava de biologia?

— Evolução. Darwin. — Ela inclinou o fone no pescoço. — A ideia de que tudo que a gente é hoje é porque deu certo o suficiente pra sobreviver. Que a gente não foi desenhado assim, foi chegando assim.

Fiquei olhando pra ela por um segundo.

— Isso casa bem com o livro das árvores — eu disse.

Ela piscou.

— Casa como?

— As árvores que partilham nutriente com as vizinhas sobrevivem mais porque a floresta inteira fica mais forte. É evolução também. Cooperação como estratégia de sobrevivência.

Ela ficou quieta um bom tempo digerindo. Depois pegou o livro que estava no meu colo, olhou a capa, folheou as primeiras páginas. Me devolveu com cuidado, como quem devolve coisa emprestada.

— Você tem filho? — ela perguntou.

— Dois. Adultos. Você tem irmão?

— Irmã de oito anos. A chata. — Ela disse isso com um sorriso que não era sorriso de raiva, era sorriso de quem se lembra de algo que irritou e que no fundo gosta.

— A mais nova sempre parece chata pra mais velha — eu disse. — Depois de um tempo você vai olhar pra trás e ela vai ser a pessoa que melhor te conhece no mundo.

Ela bufou.

— Sua irmã mais nova também era chata?

— Muito. Ela me emprestou dinheiro quando eu precisei com quarenta anos e não me cobrou com juros.

A Iza riu. Um riso curto, mas genuíno, o tipo que aparece antes de a pessoa perceber que estava rindo.

O painel marcou cento e dez quando voltou a chover um pouco, uma garoa daquelas de Goiânia que não sabe bem o que quer. A gente se espremeu mais pra dentro do corredor coberto, e a fila ficou mais compacta, mais solidária à força. A Iza puxou do mochilão um guarda-chuva compacto que ela não precisou usar mas teve o bom senso de trazer.

— Você quer dividir?

— Estou coberta, obrigada.

Ela abriu mesmo assim, segurou entre nós dois, um gesto sem drama.

Ficamos assim, debaixo do mesmo guarda-chuva que não era necessário, esperando o cento e vinte e três aparecer no painel.

Quando chegou minha vez, quase quatro horas depois de ter chegado, me levantei, guardei o livro.

— Foi bom esperar com você, Iza.

Ela olhou pra cima do celular.

— Foi — ela disse. Sem elaborar, sem enfeitar. Só aquela palavra.

Na saída, quando já estava no corredor, ouvi ela chamar.

— Beatriz.

Virei.

— Esse livro das árvores. Tem no aplicativo de leitura, ou só em papel?

— Não sei dizer. Mas se quiser eu te indico onde comprar em papel. Papel tem uma coisa que tela não tem.

— O quê?

— Você pode dobrar a página pra lembrar onde parou. E as marcas ficam.

Ela ficou me olhando com aquela expressão de adolescente que não quer demonstrar que achou algo interessante demais.

— Tá bom — ela disse, e estendeu o celular com a tela de contato aberta.

Digitei meu número. Ela salvou como "Beatriz árvores".

Eu soube quando cheguei em casa porque ela mandou mensagem pedindo o nome completo do livro, com um emoji de árvore. Respondi. Ela demorou um pouco e escreveu: "achei. tem no e-book mas vou comprar em papel porque quero as marcas."

Às vezes o que une duas pessoas que não deveriam ter nada a ver uma com a outra é exatamente o tempo que as duas tinham que matar.

Publicado por Relatos Humanos em . Relatos Humanos — boas histórias para inspirar.

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