amizade

Dois Velhos e Um Banco de Praca

Dois homens que perderam tudo se encontram no mesmo banco de praca todas as manhas. Sem querer, salvam um ao outro.

Por Relatos Humanos
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Dois Velhos e Um Banco de Praca

Seu Bento chegava à praça às sete da manhã. Sentava-se sempre no mesmo banco, debaixo do ipê amarelo, e ficava olhando os pombos. Tinha perdido a esposa no ano anterior, e a casa, antes cheia, agora ecoava. A praça era o único lugar onde o silêncio não doía tanto.

Um dia, um outro velho sentou-se na outra ponta do banco. Cabelos brancos, terno surrado, um jornal velho debaixo do braço. Não disseram nada. No dia seguinte, o homem voltou. E no outro. Ficavam ali, lado a lado, dois estranhos compartilhando o mesmo silêncio.

Foi Seu Bento quem falou primeiro, depois de uma semana: — O senhor também alimenta os pombos? O outro respondeu: — Não tenho com quem mais conversar. Os pombos, pelo menos, voltam. Chamava-se Otávio. Tinha sido professor, depois ficou viúvo, e os filhos moravam longe, num país de nome difícil. Telefonavam no Natal e no aniversário. O resto do ano, era ele, o apartamento vazio e a praça.

Aos poucos, o banco virou o ponto de encontro dos dois. Seu Bento levava café numa garrafa térmica. Otávio levava pão de queijo da padaria. Falavam de futebol, de política, das esposas que partiram, dos filhos que sumiram na correria do mundo. Riam de coisas antigas. Discutiam por bobagens. Eram, sem nunca terem dito a palavra, amigos.

Numa manhã de inverno, Otávio não apareceu. Nem no dia seguinte. Seu Bento, preocupado, fez o que nunca tinha feito: foi até o endereço que o amigo uma vez mencionara. Bateu na porta. Ninguém respondeu. Insistiu. Ouviu, lá dentro, um gemido fraco.

Chamou o resgate. Otávio havia caído no banheiro dois dias antes e estava no chão, fraco, sem conseguir alcançar o telefone. Os médicos disseram que, se ele tivesse passado mais um dia sozinho, não teria resistido. — O senhor salvou a vida do seu amigo — disse a enfermeira.

Seu Bento, sentado ao lado da cama do hospital, resmungou, encabulado: — Ele me devia um pão de queijo. Eu só fui cobrar.

Otávio se recuperou. E os dois voltaram ao banco da praça, agora com uma regra nova: se um faltasse um dia, o outro ia atrás. Trocaram telefones, chaves reservas, a promessa silenciosa de não deixar o outro cair sozinho de novo.

Os jovens que cruzavam a praça viam apenas dois velhos num banco. Não imaginavam que ali, debaixo do ipê amarelo, dois homens que a vida tinha esvaziado haviam se reenchido um ao outro. Porque às vezes a maior sorte da velhice não é ter muitos. É ter um. Um que vai te procurar quando você não aparecer.

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