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O Menino que Plantava com Seu Bento

Um garoto sem paciencia e um velho sem companhia se encontram num canteiro e cultivam algo maior que hortalicas.

Por Relatos Humanos
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O Menino que Plantava com Seu Bento

A mãe de Pedrinho chegava tarde todo dia. Saía antes do sol e voltava quando ele já estava exausto de esperar, e nesses intervalos o menino de oito anos era um furacão sem direção — saltava o muro do vizinho, corria no corredor do prédio, derrubava coisas sem querer e algumas vezes de propósito só para ver o que acontecia. A professora já tinha ligado três vezes naquele semestre. A mãe estava correndo em duas frentes: o trabalho e a culpa.

Foi quando ela pediu ao Seu Bento que ficasse de olho no menino nas tardes.

Seu Bento morava na casa dos fundos do mesmo quarteirão, um senhor de setenta e dois anos que havia enviuvado dois anos antes e que passava os dias no ritmo tranquilo de quem aprendeu que a vida não precisa de pressa. Cultivava uma horta no quintal — tomate, coentro, alface, quiabo, uma fileira de cebolinha que ele aparava com tesoura como quem corta cabelo. Aceitou o pedido da mãe do Pedrinho meio a contragosto, porque achava que criança barulhenta era uma desordem que não combinava com a paz que havia conquistado.

No primeiro dia, Pedrinho pisou nos canteiros três vezes. Arrancou uma muda de alface achando que era mato. Perguntou por que a terra cheirava daquele jeito, por que aquele tomateiro estava amarrado num pau, se os tomates cresciam na árvore ou no chão, o que acontecia se ele enterrasse um giz, quanto tempo levava para uma minhoca crescer. Seu Bento, acostumado ao silêncio, ficou parado no meio da horta ouvindo aquela enxurrada de palavras e pensou, sério, em devolver o menino.

Mas não devolveu.

Em vez disso, no dia seguinte, ele chamou Pedrinho, apontou para um canto do quintal onde havia um quadrado de terra boa, limpa, e disse: "Esse canteiro é seu. O que você plantar aqui, você colhe. Mas tem que cuidar todo dia."

O menino olhou para aquele pedaço de chão como se fosse um presente estranho. Seu Bento lhe deu uma embalagem de sementes de tomate — pequenas demais para o tamanho da atenção que mereciam — e mostrou como abrir sulcos com o dedo, a que distância plantar cada uma, quanto de terra colocar por cima. Pedrinho fez tudo com uma seriedade incomum, a língua entre os dentes, a testa franzida.

No dia seguinte, chegou correndo antes que a sombra do Seu Bento saísse da varanda: "Já nasceu?" O velho quase sorriu. "Calma, moleque. Planta não cresce na pressa. Cresce com paciência."

Pedrinho parou. Olhou para a terra. Ficou quieto por mais tempo do que Seu Bento esperava. E então perguntou, baixo: "Quanto tempo eu tenho que esperar?" O velho sentou no banco ao lado da horta e disse: "Depende. Do tempo, da terra, de como você cuida. Mas se você regar todo dia e não arrancar antes da hora, aparecem. Aparecem sempre."

Aquele silêncio foi o primeiro momento verdadeiro entre os dois.

A partir daí, Pedrinho passou a regar o canteiro todo dia, chegando às três da tarde com a mochila ainda no ombro. Seu Bento ia ensinando: a água não podia ser demais nem de menos, a terra ficava ressecada quando precisava de rega, a folha ficava amarela quando o sol era bravo demais. O menino absorvia aquilo com uma atenção diferente da da escola — não porque fosse mais fácil, mas porque tinha consequência real. Se regasse errado, os tomates não nasciam. Se regasse certo, nascia o broto, e o broto era dele.

No décimo dia, Pedrinho chegou quieto, abaixou no canteiro e apontou sem falar: um fio verde finíssimo rompendo a terra, menor que a unha do dedo mínimo. Seu Bento se abaixou ao lado, colocou os óculos e olhou. "Nasceu", disse, apenas isso. E o menino ficou olhando para aquele broto por um tempo que pareceu desproporcional para alguém de oito anos.

Com os brotos vieram as conversas. Seu Bento falava enquanto podava, enquanto retirava o inseto da folha, enquanto misturava adubo. Falava da esposa, que plantava tudo que havia naquele quintal antes de partir. Falava da roça onde cresceu, do avô que lhe ensinou a medir a chuva pelo jeito que a terra cheirava. Pedrinho ouvia e às vezes perguntava coisas que o velho não esperava: "A senhora sofreu quando a senhora morreu?" Seu Bento ficou quieto um instante. "Você quer perguntar se eu sofri quando ela morreu." "Isso." "Sofri. Ainda sofro. Mas a horta ajuda." O menino considerou aquilo por um momento. "Porque você pensa nela quando planta?" "Porque eu planto o que ela gostava de colher."

Havia dias em que Pedrinho chegava com a energia de sempre, saltitando, derrubando ferramentas, tentando convencer Seu Bento a regar na mangueira em vez de no regador porque era mais rápido. O velho mantinha o ritmo do regador e deixava o menino extravasar em volta. Havia dias em que o menino chegava mais quieto, depois de uma briga na escola ou de uma tarde ruim, e ficava agachado no canteiro como se aquele pedaço de terra fosse o único lugar que fazia sentido. Seu Bento aprendia a reconhecer uma coisa na outra e a deixar acontecer.

Os tomates levaram quase dois meses. Quando os primeiros ficaram vermelhos, firmes, Pedrinho os colheu com um cuidado que a mãe nunca tinha visto nele com coisa nenhuma. Levou para casa seis tomates numa caixinha de ovos que Seu Bento lhe deu, e os colocou na mesa da cozinha como se fossem algo de valor inestimável. A mãe, surpresa, perguntou de onde vieram. "Eu plantei", disse ele, simples, com o orgulho quieto de quem não precisa explicar mais do que isso.

A mãe foi agradecer ao Seu Bento na manhã seguinte e o encontrou na varanda, tomando café. Ela disse que o Pedrinho estava diferente, mais calmo. O velho balançou a cabeça. "Ele só precisava de uma coisa que crescesse porque ele cuidou."

A amizade dos dois durou. Pedrinho cresceu e o canteiro cresceu com ele. Quando foi para o colegial, continuava aparecendo nas tardes de sexta, menos pela horta e mais pela conversa — porque Seu Bento tinha o jeito específico de ouvir que deixava as coisas mais claras. E quando o velho ficou mais idoso, com os joelhos doentes, foi Pedrinho quem assumiu a horta por inteiro, sem que ninguém precisasse pedir.

Anos depois, já rapaz, explicou para um amigo por que tinha esse hábito de regar plantas todo dia, mesmo morando num apartamento pequeno, com vasinhos na sacada. Disse que um velho de setenta anos lhe dera um canteiro de terra quando ele tinha oito. "Ele disse que o que eu plantasse era meu, mas que eu tinha que cuidar todo dia." Fez uma pausa. "Levou um tempo pra eu entender que ele não tava falando só de tomate."

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