Pedrinho era um furacao de oito anos. Energia demais, paciencia de menos. A mae, sem saber o que fazer nas tardes em que trabalhava, pediu a Seu Bento, o vizinho idoso, que ficasse de olho no menino. O velho, que vivia sozinho desde que enviuvara, aceitou meio a contragosto.
No comeco, foi um desastre. Pedrinho pisava nos canteiros, arrancava o que nao devia, fazia mil perguntas por minuto. Seu Bento, acostumado ao silencio, quase desistiu. Mas, em vez de brigar, teve uma ideia: deu ao menino um pedaco de terra so dele. — Esse canteiro e seu. O que voce plantar, voce colhe. Mas tem que cuidar todo dia.
Pedrinho plantou sementes de tomate. No dia seguinte, voltou correndo: — Ja nasceu? Seu Bento riu. — Calma, moleque. Planta nao cresce na pressa. Cresce com paciencia. E ali, sem perceber, comecou a licao mais importante.
O menino aprendeu a regar todo dia, a esperar, a observar o broto rompendo a terra. A energia continuou, mas ganhou foco. E Seu Bento, que achava que ia apenas "tomar conta", reencontrou a alegria de ter companhia, de ensinar, de ser esperado por alguem.
Os dois viraram dupla inseparavel. O velho ensinava sobre plantas, sobre a vida, sobre os tempos antigos. O menino trazia risada para uma casa que andava muda. Quando os tomates de Pedrinho finalmente amadureceram, ele os colheu com um orgulho que nenhum brinquedo jamais lhe dera.
Anos depois, ja rapaz, Pedrinho fez questao de continuar cuidando do jardim mesmo quando Seu Bento, ja muito velho, nao conseguia mais. — Ele me deu um canteiro — costuma dizer. — Mas, na verdade, plantou em mim coisas que eu colho ate hoje: paciencia, cuidado e a sorte de ter tido um amigo de setenta anos quando eu tinha oito.