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O Cachorro que Derrubou o Muro Entre Dois Vizinhos

Dois vizinhos brigados ha anos sao reaproximados pela criatura mais improvavel: um cao perdido.

Por Relatos Humanos
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O Cachorro que Derrubou o Muro Entre Dois Vizinhos

O muro entre as casas de Seu Nelson e Seu Raimundo tinha dois metros de altura e uns bons vinte anos de idade. Foi construído pouco depois da briga da goteira — uma goteira de quintal que escorregava do telhado de um para a calçada do outro e que, tratada entre homens orgulhosos, cresceu até virar uma fronteira de alvenaria. Com o tempo, nenhum dos dois lembrava direito qual telhado gotejava para qual lado. Mas o muro ficou, e com ele a decisão muda de não se cumprimentar mais.

Eram dois velhos teimosos, cada qual à sua maneira. Seu Nelson havia sido caminhoneiro a vida toda, um homem de poucas palavras e opiniões firmes que não cediam fácil. Seu Raimundo tinha sido contador, usava terno mesmo no calor e falava com a precisão de quem está sempre a ponto de apresentar um relatório. Em outras circunstâncias, talvez tivessem se entendido bem. Mas a primeira circunstância que tiveram foi a goteira, e esse tipo de início é difícil de desfazer.

Anos de vizinhança hostil criaram uma coreografia sem palavras: quando um estava regando as plantas na varanda, o outro esperava entrar para regar as dele. Quando um estacionava o carro na rua, o outro fingia não ter visto. Os olhares que se cruzavam por cima do muro eram rápidos e sem destino, como quem olha para o nada.

A chuva naquela manhã veio de repente, uma daquelas chuvas de outubro que chegam na horizontal, e a rua ficou vazia em minutos. Foi por isso que o cachorro pareceu surgir do nada: estava no meio da calçada, parado na divisa exata entre as duas casas, como se um invisível regulador de território o tivesse posicionado ali de propósito. Era magro demais, com aquele magro de cachorro que andou muito sem comer, o pelo colado ao corpo pela chuva, os olhos escuros e pacientes olhando para nenhuma casa em particular.

Seu Nelson o viu da janela da cozinha, enquanto esperava o café passar. Ficou um momento observando o bicho. Suspirou com o ar de quem vai se arrepender da decisão que está prestes a tomar, foi até a geladeira, pegou o resto de frango cozido de ontem, colocou num prato e saiu debaixo da chuva com um guarda-chuva meio torto.

Seu Raimundo o viu da varanda coberta, onde estava lendo o jornal. Dobrou o jornal, ficou olhando para o cachorro por um tempo com aquela expressão de quem está calculando. Entrou, voltou pouco depois com um prato de arroz e carne que havia sobrado do jantar, e desceu a escada da varanda.

Os dois se encontraram na calçada, cada um com um prato na mão, olhando para o cachorro. Depois olhando um para o outro. Depois para o cachorro de novo.

O silêncio tinha a qualidade específica do constrangimento que vem quando dois inimigos descobrem que são, naquele momento, exatamente a mesma pessoa.

O cachorro olhou para um prato, olhou para o outro, e comeu dos dois com a eficiência tranquila de quem não tem tempo para dramas humanos. A cauda balançava com um ritmo regular, igualitário, sem favoritismo.

— Bicho esperto — resmungou Seu Raimundo.

— Comeu dos dois lados — completou Seu Nelson.

Quase riu. Quase. Mas o canto da boca se mexeu de um jeito que, para quem conhecia aquela cara fechada, era o equivalente a uma gargalhada.

Os dois ficaram ali parados na chuva que ia diminuindo, sem saber muito bem o que fazer com a situação. O cachorro terminou os dois pratos e foi deitar embaixo do carro de Seu Nelson, protegido da chuva, como se a questão do endereço já estivesse resolvida.

No dia seguinte, o cachorro estava de volta, sentado na divisa, esperando. Seu Raimundo chegou primeiro desta vez. Seu Nelson saiu logo depois. Os dois repetiram a cena do dia anterior, mas desta vez sem a surpresa de se encontrarem — e isso, por si só, era uma negociação silenciosa.

Ao longo dos dias seguintes, o ritual foi se estabelecendo. O cachorro aparecia, os dois saíam, havia um momento de silêncio na calçada que foi ficando ligeiramente menos constrangido a cada vez. O resmungo virou comentário curto sobre o tempo. O comentário virou observação sobre o bicho. A observação virou conversa.

Uma manhã, Seu Raimundo apareceu com café em duas xícaras. Não perguntou se Seu Nelson queria. Simplesmente colocou uma no parapeito do muro e disse que estava quente. Seu Nelson pegou a xícara sem dizer obrigado, bebeu em silêncio, e devolveu-a limpa.

Decidiram que precisavam de um nome para o animal. Levaram dois dias debatendo isso com a seriedade que se dá a questões importantes. Seu Raimundo sugeriu Trovão. Seu Nelson achou pretensioso. Seu Nelson sugeriu Faísca. Seu Raimundo achou que não combinava com o feitio calmo do bicho. Chegaram a Sorte como chega a um acordo num fim de tarde: com cansaço e a sensação de que é a opção certa.

A guarda foi dividida com a pragmaticidade de dois homens que não gostam de burocracia: um de dia, o outro de noite, o veterinário compartilhado, as vacinas divididas pela metade. Sorte dormia onde quisesse, comia dos dois lados, e carregava com a leveza indiferente dos cães a missão que não sabia estar cumprindo.

O muro entre as casas continuou de pé. Mas o portão que ficava sempre trancado, agora ficava encostado — e essa é uma diferença que as pessoas de fora talvez não percebam, mas que Seu Nelson e Seu Raimundo conheciam muito bem: é a diferença entre um limite e um convite.

— A gente brigou anos por uma goteira — admitiu Seu Nelson, certa tarde, enquanto os dois viam Sorte dormir ao sol da calçada.

Seu Raimundo ficou em silêncio por um momento. Então disse, com aquela precisão de contador que não abandona as palavras mesmo quando não é em números:

— Foi preciso um vira-lata pra mostrar que vizinho bom vale mais que orgulho.

Sorte abriu um olho, balançou o rabo uma vez, e voltou a dormir.

Publicado por Relatos Humanos em . Relatos Humanos — boas histórias para inspirar.

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