Seu Nelson e Seu Raimundo eram vizinhos de muro e inimigos de longa data. A briga comecou por causa de uma goteira, anos antes, e foi crescendo: galho que caia no quintal do outro, som alto, carro mal estacionado. Nao se cumprimentavam. Cada um, na sua casa, alimentava a propria implicancia.
Numa manha de chuva, um cachorro magro e tremulo apareceu na rua, sem coleira, com olhos de fome. Parou bem na divisa das duas casas, como se nao soubesse de que lado pedir ajuda. Seu Nelson o viu da janela. Seu Raimundo tambem. Os dois, separados pelo muro, tiveram o mesmo impulso.
Sem combinar, cada um saiu com um prato de comida. Encontraram-se na calcada, frente a frente, pela primeira vez em anos. Houve um silencio constrangido. O cachorro, faminto, comeu dos dois pratos, abanando o rabo para um e para outro.
— Bicho esperto — resmungou Seu Raimundo. — Comeu dos dois lados. Seu Nelson quase riu. Quase. Mas o gelo tinha trincado.
O cao adotou a calcada — e, sem querer, os dois homens. Toda manha, voltava. E toda manha, os vizinhos se viam para alimenta-lo. Aos poucos, o silencio virou resmungo, o resmungo virou conversa, a conversa virou um cafe na calcada enquanto o cachorro dormia ao sol.
Decidiram, enfim, dividir a guarda do animal. Um cuidava de dia, o outro de noite. Deram a ele o nome de Sorte. E faziam jus ao nome: a sorte de dois velhos teimosos terem reaprendido a ter um amigo.
O muro entre as casas continuou de pe. Mas o portao, que antes vivia trancado, agora ficava encostado. — A gente brigou anos por uma goteira — admitiu Seu Nelson. — Foi preciso um vira-lata pra mostrar que vizinho bom vale mais que orgulho.