Cida e Lurdes se conheceram limpando o mesmo predio de escritorios. Trabalhavam duro, ganhavam pouco, e nas pausas dividiam o cafe e os sonhos. Cida queria ver a filha na faculdade. Lurdes queria sair do aluguel. Sonhos simples de quem trabalha demais e descansa de menos.
Numa sexta-feira, a empresa terceirizada perdeu o contrato e demitiu as duas, sem aviso, sem indenizacao decente. Saíram do predio em silencio, cada uma carregando o medo de recomecar do zero, ja nao tao jovens.
Foi na parada de onibus que Lurdes falou o que as duas pensavam: — A gente limpa melhor que muita empresa grande. Por que a gente nao trabalha pra gente mesmo? Cida riu, achou loucura. Mas a ideia nao saiu da cabeca.
Comecaram pequenas. Pegaram dois ou tres servicos por conta propria, em casas de familia. Compraram material com o pouco que tinham. Faziam tudo com tanto capricho que os clientes as indicavam para outros. O telefone comecou a tocar.
Nao foi facil. Houve meses magros, clientes que sumiam, dias de desanimo em que uma segurava a outra. Mas eram duas — e duas que confiam uma na outra valem por dez. Quando uma queria desistir, a outra dizia: — Lembra do onibus? A gente prometeu.
Tres anos depois, Cida e Lurdes tinham uma pequena empresa de limpeza, com funcionarios, uniforme proprio e uma agenda cheia. As mesmas mulheres que foram dispensadas como descartaveis agora assinavam a carteira de outras pessoas.
A filha de Cida entrou na faculdade. Lurdes saiu do aluguel. E as duas continuam, ate hoje, dividindo o cafe nas pausas — so que agora, no escritorio que e delas. — A gente perdeu o emprego no mesmo dia — diz Cida. — Mas ganhou uma socia e uma amiga pra vida. No fim, foi o melhor dia ruim que ja tivemos.