No primeiro dia, eu almocei sozinho atrás da coluna do refeitório.
Não era uma coluna estratégica, daquelas que ficam perto das janelas e têm alguma graça no isolamento. Era a coluna do meio, larga, de concreto pintado de bege, que ficava bem no centro do barulho sem dar pra ver nada além do próprio bandejão. Mas era o único lugar onde não tinha ninguém e eu precisava de um lugar sem ninguém enquanto aprendia como aquele colégio respirava.
Tinha chegado a Curitiba em março, do Recife, porque meu pai foi transferido e transferência de pai era ordem da família inteira. Doze anos, duas malas e uma raiva surda que eu não conseguia nomear mas que ficava no peito como pedra.
O Colégio Estadual João XXIII ficava na Vila Hauer e cheirava a tinta de quadro-negro e mato molhado. Os alunos já tinham suas panelas desde fevereiro, posições marcadas nas mesas, nos bancos da quadra, nos degraus do pátio. Entrar nisso em março era como chegar numa festa depois que a conversa já embalou — você pode tentar, mas sempre vai estar repetindo uma piada que os outros já contaram melhor.
Foram dois meses assim.
Não que ninguém fosse cruel. Apenas não me viam. Que é às vezes pior que crueldade, porque contra crueldade você pode fazer alguma coisa.
Seu Benedito Ferreira Lima eu vi pela primeira vez numa quinta-feira de manhã, lavando o corredor do bloco dois com uma mangueira. Uns sessenta e tantos anos, bigode grisalho aparado, camiseta azul limpa demais pra ser de quem lida com limpeza — trocava antes de ir embora, hábito de quem tem orgulho.
Eu estava no corredor porque tinha saído da aula com dor de cabeça fingida, andando sem destino.
— Você vai molhar o tênis se passar por aqui — ele disse, sem parar de mangueirar, sem me olhar.
Dei a volta pelo corredor lateral. Quando passei por ele, já com o piso atrás, ele disse:
— Dor de cabeça passa mais rápido na sombra do que andando ao sol.
Me virei. Ele ainda não estava me olhando.
— Como o senhor sabe que é dor de cabeça?
— Não sei — ele disse, com naturalidade. — Chutei.
Isso me fez rir pela primeira vez em dois meses naquela escola. Não foi risada grande, foi aquela risada curta e involuntária que acontece quando você ainda está com raiva mas alguma coisa furou a armadura sem pedir licença.
Nos dias seguintes, comecei a notar seu Benedito.
Ele estava em todo lugar no colégio, mas de um jeito que não ocupava espaço. Varria a escadaria às seis e meia da manhã, antes dos alunos chegarem. Consertava a dobradiça da porta do banheiro com um chave de fenda que tirava do bolso do uniforme. Regava as plantas do pátio com uma lata cor de ferrugem que devia ter quarenta anos. Os alunos passavam por ele como passam por banco ou poste — sem má vontade, apenas sem ver.
Eu comecei a ver.
Ficava observando de longe com aquela capacidade ociosa que o isolamento desenvolve em você — quando não tem ninguém pra olhar, você olha pro resto do mundo com mais atenção do que a maioria das pessoas.
Numa sexta-feira de abril, eu passei perto do quartinho de material de limpeza que ficava no fundo do corredor do bloco um e a porta estava entreaberta. Eram dois da tarde, o sol batia de lado no corredor e criava um feixe de luz que entrava pelo vão da porta.
Dentro do feixe de luz, eu vi livros.
Não um livro. Livros. Prateleiras de tábua rústica pregadas na parede, do chão até onde a altura do homem alcançava, com livros organizados — eu vi isso claramente — por assunto e não por tamanho, o que é o jeito que só bibliômanos organizam.
Eu empurrei a porta devagar.
— Pode entrar — disse a voz do seu Benedito, que estava sentado numa cadeira baixa no canto que a porta escondia, lendo com óculos de grau redondo, um livro com capa desgastada no colo.
— São seus? — perguntei olhando pras prateleiras.
— De quem mais seriam?
Me aproximei. Vi nas lombadas: Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice, uma fileira inteira de Machado. Drummond com páginas marcadas de papéis dobrados. Dois dicionários grossos encostados verticalmente como sentinelas.
— O senhor leu tudo isso?
— Quase tudo. Alguns mais de uma vez.
Me virei pra ele. Ele tinha fechado o livro mas guardado o lugar com o dedo.
— Por que fica aqui? — perguntei, e quis dizer: por que esses livros ficam num quartinho de vassoura e não numa sala onde alguém pudesse ver. Mas a pergunta saiu assim mesmo, mal acabada.
Ele me entendeu do jeito certo.
— Porque aqui ninguém me enche o saco enquanto leio — ele disse, simples.
Voltei na segunda seguinte. E na quarta. E na outra sexta.
Virou ritual sem combinarmos. Nos intervalos longos, eu aparecia no fundo do corredor do bloco um. Ficávamos cada um num canto — eu na cadeirinha que ele arranjou pra mim, ele na sua — e líamos em silêncio. Às vezes ele indicava alguma coisa: — Esse aqui você vai gostar — e estendia um livro sem explicar por quê.
Numa tarde de maio, enquanto eu lia O Alquimista, ele disse sem tirar os olhos do próprio livro:
— Você vai bem na escola?
— Nas notas, sim — eu disse.
— Mas não nas outras coisas.
Não era pergunta.
— Ainda não.
Ele virou uma página.
— Leva tempo. Você veio de longe. — Uma pausa. — Eu também vim de longe. Do interior do Paraná, de uma cidade que não tem nem na maioria dos mapas. Demorei dois anos pra me sentir daqui.
— E o senhor se sentiu?
— Aprendi a ser de dois lugares ao mesmo tempo. — Ele olhou pra mim por cima dos óculos. — Que é diferente de não ser de lugar nenhum.
Guardo essa frase até hoje.
No começo de junho, a professora de português, dona Sônia, anunciou uma feira de leitura em agosto e pediu projetos de cada turma. A sala ficou em silêncio.
Levantei a mão.
— Eu tenho uma ideia — eu disse. Era a primeira vez em quatro meses que eu falava em sala sem ser chamado.
Propus uma exposição com a coleção do quartinho. Dona Sônia franziu a testa. Expliquei.
Tive que convencer seu Benedito primeiro.
— Não precisa disso — ele disse, quando apresentei a ideia no quartinho numa tarde de junho. — Não é pra ninguém ver.
— Mas já é de todos — eu disse, com a obstinação de doze anos que ainda não sabe quando está errado. — O senhor cuida desse colégio há quanto tempo?
— Dezoito anos.
— Então os livros do senhor também são do colégio. De um jeito ou de outro.
Ele ficou me olhando por um tempo.
— Você é teimoso — ele disse.
— Sou do Recife — eu disse.
Ele soltou aquela risada curta, como eu tinha soltado no corredor molhado, e concordou.
A exposição foi em agosto. Seu Benedito organizou os livros numa mesa comprida no pátio coberto, com fichinhas escritas à mão explicando cada autor. Ficou ao lado da mesa durante o intervalo, e pela primeira vez desde que eu o conhecia, os alunos paravam.
Paravam e perguntavam.
A diretora, dona Márcia, ficou parada na frente da coleção por uns cinco minutos, lendo as fichinhas, e depois virou pro seu Benedito com uma expressão que eu não consigo descrever melhor do que espanto honesto.
— Benedito, eu não sabia que você tinha isso aqui.
— A maioria não sabia — ele disse, com a naturalidade de quem sabe que é verdade e parou de se magoar com isso.
No fim do ano, terminei o sexto ano com dois amigos de verdade — o Rodrigo, que me emprestou o primeiro HQ da minha vida, e a Juliana, que era do Rio e também tinha chegado de fora. Encontrei Juliana numa tarde de setembro encostada do lado de fora da mesma coluna, e reconheci o gesto.
Seu Benedito se aposentou em dois mil e oito. A escola fez uma festa pequena na sala dos professores. Eu levei um livro embrulhado em papel kraft que ele abriu com cuidado, do jeito que se abre presente quando se respeita o embrulho.
Era Grande Sertão: Veredas, edição nova, porque a dele estava tão lida que estava se desfazendo.
— Você comprou com seu dinheiro? — ele perguntou.
— De lavar carro no fim de semana — eu disse.
Ele me olhou por um tempo.
— Obrigado, Mateus — ele disse. E era a primeira vez, em seis anos de amizade, que ele usava meu nome.
Trinta e cinco anos. Num sábado de manhã em Curitiba, numa feira de livros usados na Praça Osório, paro em frente a uma caixa de papelão com lombadas antigas e vejo, escrito à mão numa fichinha colada na contracapa de uma edição desbotada de Vidas Secas, a letra que eu reconheço antes de ler o nome.
"Este livro ensina o que a seca faz com o corpo e o que a ausência faz com o espírito. Ler devagar."
Benedito Ferreira Lima, abaixo, em letra menor.
Pergunto ao vendedor de onde veio o livro. Ele não sabe — comprou num lote de uma família. Compro o livro por dois reais e saio da feira segurando ele com as duas mãos, como se fosse cair.
Nem toda presença que nos formou ficou pra ver o que formou.
Mas fica na letra.