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Os Amigos de Carta que Levaram Quarenta Anos para se Abracar

Comecaram a se escrever ainda jovens, por acaso. So se viram pessoalmente quando ja eram dois velhos.

Por Relatos Humanos
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Os Amigos de Carta que Levaram Quarenta Anos para se Abracar

Em 1980, um jovem chamado Paulo, do interior do Brasil, escreveu uma carta para um endereco sorteado num programa de radio que ligava correspondentes de lugares distantes. Do outro lado, num pais frio do outro lado do mundo, um rapaz chamado Henrik recebeu aquela carta de um desconhecido. Respondeu por curiosidade. E assim comecou uma amizade que duraria a vida inteira.

Por quatro decadas, eles se escreveram. Cartas, depois cartoes, depois e-mails. Contaram tudo: os casamentos, os filhos, os empregos, as perdas, os medos. Paulo aprendeu sobre a neve que nunca viu; Henrik, sobre o calor do sertao que nunca sentiu. Eram amigos intimos que nunca tinham ouvido a voz um do outro.

A vida, sempre corrida, nunca permitiu a viagem que tantas vezes prometeram um ao outro. "Ano que vem eu vou te visitar", escreviam, decada apos decada. Mas o ano que vem custava a chegar — havia sempre uma despesa, uma obrigacao, uma distancia grande demais.

Ja velhos, os dois sentiram que o tempo encurtava. Os filhos de Paulo, comovidos com aquela amizade de uma vida, decidiram dar um jeito. Juntaram dinheiro, compraram a passagem e, em segredo, organizaram a viagem que os dois amigos nunca conseguiram fazer.

Quando Paulo desembarcou naquele pais frio, depois de quarenta anos de cartas, Henrik o esperava no aeroporto, ja de cabelos brancos, segurando um cartaz com o nome do amigo. Os dois velhos se reconheceram na hora — pelos olhos que tinham descrito tantas vezes no papel. Abracaram-se chorando, no meio do aeroporto, diante de estranhos que nao entendiam, mas se emocionavam.

— Quarenta anos — disse Paulo, segurando o rosto do amigo. — Quarenta anos pra te dar um abraco. Henrik, com a voz embargada e o sotaque carregado, respondeu na lingua que tinha aprendido so para ele: — Valeu a pena, meu irmao. Valeu cada carta.

Passaram duas semanas juntos, recuperando o tempo, conversando ao vivo o que tinham escrito a vida toda. E descobriram que amizade verdadeira nao precisa de proximidade para ser real. Precisa, apenas, de quem nao desista de escrever de volta.

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