Sandra e Heitor se casaram pobres e felizes. Mas o trabalho era escasso na cidade pequena, e Heitor recebeu uma proposta para trabalhar fora do pais, numa obra distante, por melhor salario. A decisao foi a mais dificil da vida deles: ficar juntos e na miseria, ou separar-se por um tempo para construir um futuro.
Escolheram a esperanca. Heitor partiu, prometendo: — Eu volto. Cada centavo que eu juntar e um passo de volta pra voce. Levou consigo uma foto dos dois e uma caderneta velha, onde anotava cada economia.
Os anos longe foram duros. Heitor morava num quartinho apertado com outros trabalhadores, comia pouco, trabalhava muito, e mandava quase tudo para Sandra. Falavam-se por telefone quando dava, contavam os meses. Sandra, em casa, guardava o dinheiro e tambem anotava: o quanto faltava para a casa propria, para o reencontro definitivo.
A saudade era um peso diario. Houve noites em que os dois quase fraquejaram, em que a distancia parecia maior que o amor. Mas, a cada ligacao, repetiam a promessa e a caderneta seguia engordando.
Cinco anos. Foi o tempo que levaram. Cinco anos de moedas contadas, de Natais separados, de abracos guardados. Ate o dia em que a meta foi atingida. Heitor comprou a passagem de volta — definitiva.
No aeroporto, Sandra o esperava segurando a mesma foto, agora gasta. Quando ele atravessou o portao, os dois correram e se abracaram como se quisessem recuperar cada dia perdido de uma vez. Compraram a casa propria, simples, com o dinheiro juntado moeda por moeda.
Hoje, ja velhos, eles guardam a caderneta numa gaveta. Os netos acham que e so um papel velho. Mas, para Sandra e Heitor, e a prova de que o amor verdadeiro sabe esperar — e que cada centavo de sacrificio vale a pena quando se sabe por quem se economiza.