A última coisa que Gláucia enxergou com clareza foi o jardim da própria casa. Era uma tarde de outubro, a luz de fim de tarde dourava as folhas do ipê, e ela estava sentada na cadeira de vime que ficava perto da janela da sala. Edson estava na cozinha, e ela podia ouvir o barulho da panela no fogão e a voz dele cantarolando de mansinho, como sempre fazia sem perceber. Ela olhou para o jardim por um tempo — as flores cor-de-laranja, o gato espreguiçado no muro, a luz —, e depois entrou para o jantar.
Duas semanas depois, a doença que vinha avançando devagar tirou de vez o que restava da visão.
O mundo de Gláucia virou sombra. Não trevas completas, mas aquele borrão permanente de quem enxerga apenas formas e tons sem nitidez, e depois nem isso. Ela que havia passado trinta anos de casamento notando as coisas — as cores da roupa que Edson escolhia, a expressão do rosto dele quando estava preocupado, o jeito como a luz entrava pela janela dependendo da hora do ano — agora estava do outro lado de um vidro que não havia como limpar.
A tristeza veio funda. Não a tristeza de quem chora alto, mas aquela outra, que se instala como umidade na parede, que você só percebe quando já está por toda parte. Gláucia parou de pedir para ir à janela. Deixou de perguntar que dia estava. Às vezes ficava horas sentada sem falar nada, com as mãos no colo e o rosto voltado para uma direção que não significava mais nada.
Foi então que Edson tomou a decisão sem anunciar. Não houve uma conversa, não houve um plano declarado. Simplesmente, numa manhã, enquanto Gláucia tomava café, ele disse: "Hoje o céu tá de um azul muito limpo. Sem nuvem nenhuma. Tipo aquela foto que a gente tirou em Ouro Preto, você lembra? Esse mesmo azul."
Ela ficou quieta por um momento. "Tô lembrando."
No dia seguinte, ele descreveu o café da manhã — a cor amarela das gemas, a textura do pão que tinha ficado torrado demais na borda, a fumaça subindo do café preto. No dia seguinte, descreveu os netos que tinham passado para visitar: a blusa azul-marinho da mais velha, os dentes de leite que a menor ainda estava perdendo, o jeito que as duas corriam para abraçar a avó mesmo antes de tirar o sapato.
Gláucia começou a esperar por aquelas descrições.
Edson não havia sido um homem de muitas palavras durante os trinta anos de casamento. Era do tipo que demonstrava pelo gesto — a xícara de chá que aparecia na mesa sem você pedir, a mão no ombro no momento certo, o silêncio de quem sabe quando não dizer nada. Mas agora ele descobria que tinha palavras, e que as palavras podiam fazer o que os olhos dela não faziam mais.
Toda tarde, antes do pôr do sol, ele a levava até a janela. Punha a mão dela na janela aberta para que ela sentisse o ar e a temperatura. E então narrava: "Tá ficando alaranjado agora, com umas faixas rosa bem finas no horizonte. O sol tá quase encostando no morro. Tem uma garça passando — branca, lenta, daquelas que voam como se tivessem todo o tempo do mundo." Gláucia fechava os olhos — porque fechados ou abertos dava no mesmo —, escutava a voz do marido, e via.
Ela começou a dizer às amigas que Edson descrevia o mundo melhor do que qualquer livro. "Eu perdi os olhos, mas ganhei os dele", dizia. "E sabe que às vezes acho que enxergo mais do que antes? Ele me obriga a prestar atenção em coisas que eu passava direto."
Era verdade para os dois. Edson passou a olhar para as coisas de um jeito diferente — não de relance, não por hábito, mas com a atenção de quem sabe que vai ter que descrever. Começou a reparar no tom exato da cor de uma flor, na espessura da luz dependendo da hora, nos pequenos movimentos que antes sumiam no meio da rotina. Descrever o mundo para Gláucia o obrigou a de fato ver o mundo.
Não houve um dia sequer em que ele falhou. Nem nos dias de cansaço, nem nos dias em que ele próprio estava com alguma dor. Havia uma tarde em que ele tinha chegado do médico com uma notícia que não era boa para ele, e mesmo assim entrou no quarto, sentou-se ao lado de Gláucia e descreveu o céu que estava vermelho demais para ser simples, como se o horizonte estivesse querendo dizer alguma coisa. Ela perguntou se ele estava bem. Ele disse que estava, e descreveu mais.
A neta mais velha, já adolescente, perguntou ao avô uma tarde como ele não cansava de fazer aquilo todo santo dia há anos. Edson ficou um pouco quieto, olhando para a janela. Então respondeu devagar: "Cansar? Minha filha, eu passei a vida olhando pra essa mulher. Agora eu só divido com ela o que meus olhos veem. E o melhor..." — ele fez uma pausa, e na pausa havia trinta anos de casamento, e a tarde de outubro do jardim, e o azul de Ouro Preto — "...ela me obriga a reparar nas coisas bonitas que eu, antes, nem percebia. A gente vê o dobro agora."
Gláucia costumava dizer, segurando a mão do marido, que tinha mudado de ideia sobre o que era amor. Antes achava que amor era olhar nos olhos de alguém. Depois de tudo, descobriu que amor é quando alguém te empresta os olhos dele para que você nunca pare de ver o mundo.
Ela morreu alguns anos depois, num dia em que o céu estava, segundo Edson, de um azul muito limpo. Sem nuvem nenhuma.