amor

A Valsa que Ficou pela Metade

Casados ha 50 anos, ele comeca a esquecer ate o nome dela. Mas ha uma coisa que a doenca nao conseguiu apagar.

Por Relatos Humanos
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A Valsa que Ficou pela Metade

Era 1971 e o salão cheirava a talco e suor bom, suor de gente que dança de verdade, que não poupa o corpo. As lâmpadas amarelas balançavam no teto quando os pares giravam, e havia uma fila de moças encostadas na parede de tijolos à vista, esperando que alguém se aproximasse com a mão estendida e o olhar de convite. Lúcia tinha dezessete anos, um vestido de chita azul que a mãe havia costurado na semana anterior, e os pés já querendo dançar antes de qualquer música começar.

Aldo veio com aquela desenvoltura ligeiramente forçada de rapaz que quer parecer mais confiante do que é. Estendeu a mão, ela aceitou, e na primeira música ele pisou no pé dela três vezes. Não duas. Três. Ela esperava que ele se acanhasse e fosse embora, mas ele não foi: pediu desculpa pela segunda vez, contou os passos em voz baixa como se estivesse resolvendo um problema de matemática, e na segunda música não pisou mais. Na terceira, eles já estavam conversando. Dançaram a noite inteira.

Foram cinquenta anos assim. Não cinquenta anos perfeitos — houve brigas, anos difíceis, dinheiro curto, filhos doentes, noites em que um dormiu voltado para a parede. Mas houve o rádio antigo na sala, e havia os domingos. Todo domingo, depois do almoço, enquanto os filhos cresciam e depois iam embora e depois vinham com netos, Aldo estendia a mão com aquela formalidade carinhosa que nunca perdeu, e dizia:

"Me dá a honra, dona Lúcia?"

E ela dava. Dançavam na sala, entre a mesa e o sofá, devagar, como se tivessem todo o tempo do mundo. Os netos achavam engraçado ver os avós dançando em casa no domingo à tarde. Os filhos sorriam com aquele sorriso meio envergonhado de quem testemunha algo íntimo demais para comentar.

O esquecimento começou de mansinho, como começa sempre. Primeiro foram as chaves que sumiam em lugares óbvios. Depois o nome da rua onde o médico ficava. Depois os compromissos, as datas, as faces de pessoas que ele havia visto na semana anterior. Aldo começava uma frase e parava no meio, procurando a palavra que havia desaparecido do lugar onde sempre esteve. Olhava para as coisas do quarto — as fotos, os objetos de uma vida inteira — como quem olha para objetos de museu: reconhece que têm importância, mas não sabe exatamente qual.

Os filhos chamaram os médicos. Os médicos fizeram os exames. O diagnóstico veio com aquela linguagem clínica que não suaviza nada de verdade: demência degenerativa, progressão inevitável, memória que iria se apagando como escrita na areia. Foram diretos porque Lúcia pediu que fossem. Ela precisava saber o que estava vindo para poder ficar de pé diante disso.

O dia mais difícil não foi o do diagnóstico. Foi um dia comum, uma tarde de terça-feira qualquer, quando Aldo olhou para ela da poltrona da sala com aquela cortesia gentil que ele usava com estranhos e perguntou:

"A senhora é a enfermeira nova?"

Lúcia ficou parada na porta com a bandeja do lanche nas mãos. Sentiu as pernas pesarem. Mas sorriu — esse sorriso que aprendemos a fazer quando a alternativa é muito cara para o outro — e disse:

"Sou, Aldo. Vim cuidar de você."

E cuidou. Todos os dias. Trocou fraldas sem perder a ternura. Respondeu às mesmas perguntas repetidas uma tarde inteira como se fosse a primeira vez. Apresentou-se a ele cada manhã como se fossem se conhecer, e toda manhã ele a achava simpática, essa enfermeira que cuidava tão bem dele. Havia dias em que Lúcia ia até o banheiro trancar a porta, abrir a torneira, e chorar em silêncio por alguns minutos. Depois lavava o rosto, se olhava no espelho, e voltava.

Os filhos propuseram um lar especializado. Ela recusou com uma firmeza que não abria espaço para segunda rodada de negociação.

"Cinquenta anos. Eu não vou entregar cinquenta anos para uma doença."

Numa tarde de domingo — domingo, sempre domingo — Lúcia ligou o rádio antigo só para preencher o silêncio que havia ficado grande demais. A válvula demorou alguns segundos para esquentar, e então vieram os primeiros compassos: uma valsa. A mesma de sempre, aquela que tocava no baile de 1971, que havia tocado em casamentos e festas e domingos de sala por meio século.

Lúcia fechou os olhos. Ficou parada no meio da sala ouvindo a música, deixando que ela trouxesse de volta o que ainda podia trazer. O vestido de chita azul. O suor bom do salão. Os pés querendo dançar antes da música começar.

Quando abriu os olhos, Aldo estava de pé.

Havia se levantado da poltrona — ele que nos últimos meses levantava com dificuldade, que precisava de ajuda para ir até o banheiro. Estava de pé no meio da sala, com as costas mais eretas do que tinham estado em meses, e a mão direita estendida na direção dela.

Os olhos eram os de sempre: confusos, sem âncora no tempo e no lugar. Mas a mão estava firme.

"Me dá a honra?"

Lúcia não conseguiu responder. A voz não saiu. Ela apenas foi até ele, devagar como se tivesse medo de quebrar aquilo, e colocou a mão na mão dele.

Dançaram.

Ele não sabia o nome dela. Não sabia o ano. Não sabia quantos filhos tinham, onde moravam, o que havia acontecido entre o baile de 1971 e aquela tarde de domingo. Mas os pés sabiam os passos. O corpo sabia o peso dela nos braços. Havia uma memória mais funda que a memória das palavras e dos rostos — a memória do músculo e do osso e do coração, que guardou aquela dança por cinquenta anos em algum lugar que a doença não conseguia alcançar.

Dançaram em silêncio, a testa dele encostada na dela, os passos um pouco lentos mas certos. Lúcia sentiu o cheiro dele — o mesmo de sempre, sabão e aquele outro cheiro específico de pessoa amada que a gente não sabe nomear mas reconheceria entre mil. Fechou os olhos e deixou a valsa durar.

Quando a música acabou, Aldo soltou a mão dela com delicadeza, voltou à poltrona, e o olhar distante retornou como maré. Ficou quieto, olhando para nada. Em alguns minutos perguntou onde estava.

Lúcia ficou parada no meio da sala por um tempo. Depois foi até a janela. Ficou olhando para a rua sem ver nada em particular.

Por três minutos, eles tinham tido tudo de volta.

Ela conta essa história até hoje, já viúva há alguns anos, com a voz firme e os olhos brilhando daquele jeito molhado que não é exatamente tristeza. Conta para os filhos, para os netos, para quem quiser ouvir, porque acha que é uma história que o mundo precisa saber.

"As pessoas acham que o amor é lembrar", diz ela, sempre que chega nessa parte. Faz uma pausa. E então completa, como quem diz uma coisa que levou a vida inteira para entender: "Não é. O amor é o que fica quando você esquece tudo o resto."

Publicado por Relatos Humanos em . Relatos Humanos — boas histórias para inspirar.

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