amor

A Valsa que Ficou pela Metade

Casados ha 50 anos, ele comeca a esquecer ate o nome dela. Mas ha uma coisa que a doenca nao conseguiu apagar.

Por Relatos Humanos
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A Valsa que Ficou pela Metade

Dona Lúcia e Seu Aldo se conheceram num baile de salão, em 1971. Ele a tirou para uma valsa e, segundo ela contava rindo, pisou no pé dela três vezes na primeira música. Mesmo assim, dançaram a noite inteira. E continuaram dançando, de um jeito ou de outro, pelos cinquenta anos seguintes.

Tiveram filhos, netos, uma casa modesta com um rádio antigo na sala. Todo domingo, depois do almoço, Seu Aldo estendia a mão e dizia: — Me dá a honra, dona Lúcia? E os dois dançavam na sala, devagar, ao som de uma valsa antiga, como se ainda tivessem vinte anos.

Então veio o esquecimento. Primeiro foram as chaves, os nomes das ruas, os compromissos. Depois, coisas maiores. Seu Aldo começou a perguntar onde estava, a confundir os filhos, a olhar para Dona Lúcia com a educação gentil de quem cumprimenta uma estranha simpática.

O dia mais difícil foi quando ele perguntou: — A senhora é a enfermeira nova? Dona Lúcia sorriu para não chorar na frente dele. — Sou, Aldo. Vim cuidar de você. — E ela cuidou, todos os dias, com a paciência de quem ama mesmo quando não é mais reconhecida.

Os médicos foram diretos: a memória dele iria embora quase por completo. Os filhos sugeriram um lar especializado. Dona Lúcia recusou. — Cinquenta anos. Eu não vou entregar cinquenta anos pra uma doença.

Numa tarde de domingo, exausta, ela ligou o velho rádio só para preencher o silêncio. Era uma valsa. A mesma de sempre. Dona Lúcia fechou os olhos, lembrando dos bailes, e quando os abriu, viu Seu Aldo de pé, a mão estendida na sua direção, os olhos confusos mas a mão firme.

— Me dá a honra? — ele disse.

Ela não conseguiu responder. Apenas segurou aquela mão. E eles dançaram. Ele não sabia o nome dela. Não sabia o ano, a cidade, quantos filhos tinham. Mas os pés dele se lembravam dos passos. O corpo dele se lembrava dela. Havia uma memória que a doença não alcançou: a memória de amar aquela mulher.

Dançaram a valsa inteira, em silêncio, a testa dele encostada na dela. Quando a música acabou, Seu Aldo soltou a mão, voltou a se sentar, e o olhar distante retornou. Mas por três minutos, eles tiveram tudo de volta.

Dona Lúcia conta essa história até hoje, já viúva, com os olhos brilhando. — As pessoas acham que o amor é lembrar. Não é. O amor é o que fica quando você esquece tudo o resto.

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