amor

As Margens do Mundo

Numa caixinha de livros de troca numa praça de Florianópolis, Isabela encontrou um exemplar velho de Clarice Lispector com um bilhete nas margens — e respondeu. O que começou como um diálogo silencioso entre desconhecidos foi se tornando a coisa mais honesta que ela já viveu.

Por Relatos Humanos
7 min de leitura
0 leituras
As Margens do Mundo

O bilhete estava escrito com caneta azul, letra pequena e inclinada, no rodapé da página trinta e dois.

"Você também achava que Macabéa ia se salvar no final? Eu achava. Toda vez que leio, eu acho de novo."

Eu fiquei parada na praça Hercílio Luz com o livro na mão e aquela pergunta me olhando de volta. Era uma edição velha de "A Hora da Estrela", capa dura amarelada, com aquela textura de livro que passou por muitas mãos e cada uma deixou um pouco de si — na lombada que abre fácil demais, no papel que já tem cor de chá. Tinha tirado da caixinha de madeira verde que alguém havia pregado no poste, uma daquelas bibliotecas de rua que apareceram espalhadas pela cidade nos últimos anos, com a placa: "Leve um, devolva um".

Era uma quinta-feira de maio, sete da manhã, e eu esperava o ônibus que me levaria ao colégio onde dava aula de português.

Fiquei com o livro.

Em casa, naquela noite, li o bilhete umas três vezes. Peguei um lápis — não quis usar caneta, para não parecer definitivo demais — e escrevi embaixo, na mesma página: "Eu acho toda vez também. Acho até que ela merecia uma vida diferente, não um final diferente. Tem diferença nisso."

Devolvi o livro na manhã seguinte, antes de pegar o ônibus. Coloquei no mesmo lugar de onde tinha tirado, entre uma coleção de Paulo Coelho e um manual de culinária nordestina sem capa.

Não esperava resposta. Era uma praça. O livro podia ficar ali uma semana ou podia sumir em dez minutos, virar objeto de outra pessoa que nunca saberia que havia bilhetes nas margens.

Mas na semana seguinte, passando pela caixinha no horário que eu havia criado o hábito de passar, o livro estava de volta.

Abri na página trinta e dois. Embaixo da minha letra de lápis, uma resposta em caneta azul: "Você tem razão. É diferente. Nunca tinha pensado assim, e agora não vou conseguir deixar de pensar. Isso é o que acontece com gente que escreve nas margens — estraga a leitura das outras pessoas de um jeito bom."

Fechei o livro. Respirei fundo. Depois abri de novo, porque era impossível não abrir de novo.

Tinha mais: "P.S.: se você pegar o livro e não responder, tudo bem. Mas saiba que vou ficar esperando."

Eu ri ali na rua, sozinha, em voz alta, do jeito que a gente ri quando não está ensaiando pra ninguém.

Naquela tarde corrigi vinte e sete redações dos meus alunos do primeiro ano do ensino médio e não consegui parar de pensar no bilhete. Escrevi três versões de resposta no meu caderno de planejamento de aula, riscando uma por uma. Na quarta tentativa, desisti de fazer bonito e escrevi o que veio: "Fiquei esperando também, e nem sabia que estava esperando até encontrar o livro aqui de novo. Isso me assustou um pouco. Mas de um jeito bom."

Depois de uma pausa, acrescentei, na linha abaixo: "Tem outros livros que você gosta assim, daqueles que você lê e fica com raiva de ter terminado?"

Coloquei o livro de volta na caixinha.

O ritmo foi se formando sozinho: ele deixava, eu pegava, eu respondia, devolvia, ele pegava, respondia, devolvia. Nunca combinamos nada disso. Aconteceu como acontecem as coisas que têm lógica própria — sem planejamento, com uma naturalidade que parece impossível depois que você para pra pensar.

Ele escrevia sobre "Grande Sertão: Veredas" (que achava difícil mas não conseguia parar), sobre um conto do Rubem Fonseca que tinha lido aos dezoito anos e que não esquecia até hoje, sobre a sensação de terminar um livro bom numa noite chuvosa e não saber o que fazer com as mãos depois.

Eu escrevia sobre os meus alunos — sobre o menino do terceiro ano que odiava gramática mas escrevia poesia às escondidas no caderno de química, sobre como a literatura de verdade nunca estava no que eu precisava ensinar para a prova, mas sempre estava no que ficava depois que a prova acabava.

"Você é professora?" ele escreveu numa segunda-feira, em letra que eu já conhecia como minha própria depois de tantos bilhetes.

"De português. Você adivinha fácil."

"Não foi difícil. Você escreve como quem está corrigindo o mundo junto."

Fiquei olhando para aquela frase por um tempo que não sei medir. Depois guardei o livro na bolsa e fui direto para o colégio sem devolver — só percebendo o que tinha feito quando cheguei na sala dos professores.

Levei o livro de volta na manhã seguinte com um bilhete na última página: "Me desculpe pelo atraso. Essa frase não me largou."

Havia algo que eu evitava nomear. A gente tinha um vocabulário de literatura e de sentimentos sobre literatura, e nos dois ramos o trocar era honesto demais para ser indiferente. Mas eu não sabia nada sobre ele além das palavras — nem a idade, nem o rosto, nem se usava óculos, nem se tinha o hábito de chegar atrasado ou de deixar a louça acumular.

E havia uma parte de mim que não queria saber ainda. Porque o que existia nas margens daquele livro tinha uma pureza que a realidade às vezes complica.

Foi ele que disse primeiro: "Eu passo por essa praça toda manhã a caminho do trabalho. Eu sei que isso muda as coisas, mas precisei falar."

Fiquei com o livro no colo por muito tempo antes de escrever: "Eu passo toda manhã também, antes de pegar o ônibus. Acho que a gente já se viu sem saber."

"Quinta-feira passada, sete e pouco. Havia uma mulher parada de casaco verde lendo em pé na frente da caixinha. Fui eu que coloquei o livro mais cedo, antes do meu horário. Precisava saber se ia aparecer."

Eu estava de casaco verde na quinta passada. Às sete e pouco.

Dessa vez não escrevi nada. Fechei o livro, coloquei na bolsa, voltei pra casa no ônibus das dezoito e poucos pensando no que fazer com aquilo tudo.

Na sexta-feira de manhã, cheguei à praça dez minutos mais cedo. Fiquei do lado de fora da caixinha com o livro na mão, sentindo o frio de maio no nariz, perguntando se ele ia aparecer ou se aquilo ia ficar em aberto pra sempre como alguns capítulos que a Clarice nunca escreveu.

Ele apareceu de sobretudo cinza, mochila nas costas, andando rápido como alguém que está tentando parecer que não está apressado.

Parou a dois metros de mim.

Ficamos nos olhando por um segundo que deve ter durado bem mais do que um segundo.

— O livro — ele disse.

— O livro — eu disse.

E dei uma risada curta, sem querer, do jeito que dá quando a situação é absurda e perfeita ao mesmo tempo.

Ele tinha uns trinta e poucos anos, óculos de armação fina, um jeito de segurar a mochila pelos alças com as duas mãos que fazia parecer que estava se segurando nela também. Os olhos eram castanhos e tinham aquela expressão de quem está chegando num lugar que demorou muito para encontrar.

— Eu sou o Paulo — ele disse.

— Isabela.

Ficamos ali por mais um momento, o livro entre nós como um objeto sagrado que nenhum dos dois sabia bem como segurar agora que não era mais um mensageiro.

— Tem um café aqui perto — ele disse. — Se você não tiver com pressa de pegar o ônibus.

Eu olhei pro ônibus que passava exatamente naquela hora, o meu ônibus, no horário exato, indo sem mim.

— Não tenho pressa nenhuma — eu disse.

Entramos no café. Pedimos duas xícaras e ficamos conversando por uma hora e quarenta minutos sobre tudo que já tínhamos dito nas margens dos livros e sobre tudo que não cabia nas margens de livro nenhum.

Saí de lá com o número dele no celular e uma sensação no peito que eu só consigo descrever assim: a sensação de um livro que você não quer que acabe, mas que você sabe, pela primeira vez em muito tempo, que ainda tem muitas páginas pela frente.

O livro da Clarice ficou na caixinha verde. Era justo — ele nos tinha apresentado, ele merecia ficar.

Às vezes o amor começa pela margem.

Publicado por Relatos Humanos em . Relatos Humanos — boas histórias para inspirar.

Comentários (0)

Carregando comentários...