A agenda estava no fundo da gaveta da cômoda, embaixo de um envelope com documentos do INSS e de um terço de contas cor-de-rosa que Renata nunca tinha visto antes.
Era aquela agenda de capa plástica azul, do tipo que se comprava em papelaria por três reais nos anos noventa. Tinha o nome da mãe escrito na capa com caneta permanente, na letra dela — aquela letra miúda e inclinada para a direita que Renata desde criança tentava imitar sem conseguir. Dona Lourdes. E abaixo do nome, o endereço antigo de Belo Horizonte, da rua onde elas tinham morado até Renata ter doze anos. A rua não existia mais com aquele nome. A prefeitura tinha trocado por um nome de político.
Renata ficou segurando a agenda por um tempo antes de abrir. Era uma sexta-feira à noite, três semanas depois do velório, e ela tinha ficado em BH para ajudar a resolver os documentos da herança — que não eram muitos, porque a mãe não tinha muito, mas burocracia é burocracia e pede seu tempo de qualquer jeito. A casa ainda cheirava ao perfume da mãe. Aquele sabonete de glicerina que Dona Lourdes usava desde sempre, que Renata nunca tinha prestado atenção enquanto a mãe era viva, e que agora parecia estar em todos os cômodos ao mesmo tempo, um fantasma perfumado que ela não conseguia decidir se queria que ficasse ou fosse.
Ela abriu a agenda na letra A.
Os nomes eram de pessoas que ela mal reconhecia — vizinhas antigas, colegas de trabalho da fábrica de calçados onde a mãe trabalhou por vinte e dois anos, parentes distantes do interior que apareciam no velório com rostos de quem ela deveria lembrar mas não lembrava. Ao lado de cada nome, um número de telefone riscado e substituído por outro, algumas vezes três ou quatro vezes, em cores de caneta diferentes — azul, preto, aquela caneta vermelha que a mãe sempre guardava na bolsa para assinar documentos importantes. E ao lado de alguns nomes, uma anotação pequena entre parênteses.
"(me levou pro hospital quando torci o tornozelo, 1998)"
"(ficou com você aquela noite que tive que viajar, 2003)"
"(emprestou dinheiro pra reforma do banheiro, nunca cobrou)"
Renata fechou a agenda. Ficou olhando para a parede por um tempo.
Depois abriu de novo, na letra B. E na C. E foi passando devagar, lendo cada anotação, como quem lê um diário que não deveria existir, cheio de uma vida que a mãe nunca tinha contado inteira para ninguém. Não porque escondesse — a mãe não era de esconder. Era de não se achar importante o bastante pra ocupar tempo de conversa com as próprias histórias.
Havia uma anotação que dizia só: "(guardou segredo)". Nenhum outro detalhe. Renata ficou dois minutos olhando pra aquela linha, tentando imaginar o segredo, tentando lembrar alguma coisa que alguém pudesse ter guardado pra Dona Lourdes, e não chegou a nenhuma conclusão. Passou para o próximo nome.
Ela ligou para a irmã, a Patrícia, que morava em São Paulo.
"Pat, você sabia que a mãe fazia isso?"
"Fazia o quê?"
"Anotava na agenda. Tipo, quem fez o quê por ela. Como uma lista de dívidas de gratidão."
Houve uma pausa do outro lado que Renata reconheceu — era a pausa que a Patrícia fazia quando alguma coisa a pegava desprevenida e ela precisava de um segundo pra decidir o que sentir.
"Sério? Que coisa dela", disse Patrícia, com aquela voz que ficava um pouco mais mole nas bordas quando ela estava emocionada e tentava não estar. "Ela era assim mesmo. Guardava tudo. Você lembra que ela ainda tinha o boletim escolar meu do terceiro ano?"
Renata lembrava. Elas tinham rido daquilo na tarde de ontem, enquanto esvaziavam a gaveta de cima.
Ficou no telefone por mais vinte minutos, mas quando desligou, ela ainda estava sentada no chão ao lado da cômoda com a agenda no colo. A casa tinha esfriado. Ela não tinha ligado o aquecedor porque parecia errado ligar o aquecedor na casa da mãe sem a mãe. Sabia que não fazia sentido pensar assim, mas pensava.
Tinha chegado na letra P. Faltava pouco.
Ela encontrou o próprio nome na letra R.
Renata. Só o primeiro nome, sem sobrenome, porque não precisava de mais. Ao lado, um número de telefone que ela reconheceu imediatamente — era o número do primeiro celular que tinha tido, um Nokia pequeno e resistente, presente de formatura da faculdade de pedagogia. Ela tinha perdido aquele celular numa viagem de ônibus para o Rio, onde foi morar logo depois. O número era de 2005. A mãe nunca tinha atualizado.
E entre parênteses, a anotação da mãe:
"(ligava toda noite pra saber se eu tinha jantado, mesmo de longe)"
Renata não conseguiu continuar lendo.
Ela tinha se mudado para o Rio de Janeiro aos vinte e quatro anos, por causa de um emprego num colégio particular em Botafogo, e ficado por lá — namoro, casamento, filho nascido no Rio, vida construída a mil e duzentos quilômetros de distância. Durante anos ela tinha carregado aquela culpa surda e constante, aquela coisa sem nome que aparecia toda vez que passavam muitos meses sem visita, toda vez que a mãe dizia "tá bom, eu entendo" no telefone com a voz um pouco diferente da que usava quando entendia de verdade — e Renata conhecia a diferença entre os dois "entendos" da mãe desde os dezesseis anos, sabia lá como.
Ela nunca tinha achado que as ligações de toda noite fossem suficientes. Ligava enquanto cozinhava, enquanto dobrava roupa depois de um dia longo, metade da atenção na conversa e metade em outra coisa. Ligava porque sabia que a mãe ficava acordada esperando o celular tocar. Ligava porque era o mínimo que conseguia fazer, e o mínimo a envergonhava — sempre pareceu pouco demais, uma moeda jogada num prato vazio.
E a mãe tinha anotado aquilo como uma dívida de gratidão. Tinha guardado entre parênteses, ao lado do número desatualizado, a ligação de toda noite, como se fosse um presente que precisava ser lembrado.
Renata ficou um tempo sem saber o que fazer com aquela informação. Sentiu vontade de ligar de novo pra Patrícia e contar, mas não sabia o que contar exatamente — não tinha palavras que coubessem no que estava sentindo. Não era alegria, não era tristeza, não era culpa. Era uma coisa mais quieta e mais pesada, do tipo que fica alojada no meio do peito e esquenta de dentro pra fora.
Ela continuou folheando. Tinha mais nomes depois do dela, até o final do alfabeto, cada um com sua anotação, cada um com uma conta aberta que a mãe tinha guardado não por obrigação ou ressentimento, mas porque não queria esquecer que o mundo tinha sido bom pra ela em certos momentos e ela devia isso a pessoas específicas, com nome e sobrenome anotados na agenda de capa azul.
Na última página, antes dos espaços de endereços, havia uma folha avulsa dobrada em quatro. Renata desdobrou com cuidado, como quem abre algo que pode não ter conserto se rasgar.
Era uma lista com oito itens, escrita com a mesma letra inclinada, numa caneta vermelha — aquela caneta vermelha da bolsa:
"Coisas que quero fazer antes de ficar velha demais."
Dona Lourdes tinha setenta e um anos quando morreu de infarto, num sábado pela manhã, enquanto regava as samambaias na varanda.
Renata leu a lista devagar. Alguns itens tinham um risco por cima, marcados como feitos. Visitar a Serra da Canastra. Aprender a fazer pão de queijo do jeito da avó Benedita. Ver o mar uma vez com cada filho.
Outros não tinham risco. Aprender inglês básico, mesmo que básico. Voltar pra Pirapora uma última vez. Escrever uma carta pra cada neto antes de ficar velha demais pra lembrar o que queria dizer.
Renata ficou olhando para o último item por um tempo que ela não conseguiria medir. Estava escrito assim:
"Falar pra Renata que ela foi boa filha, mesmo de longe."
Não tinha risco por cima.
A mãe não tinha chegado a falar.
Renata dobrou o papel, colocou de volta dentro da agenda, e fechou. Ficou sentada no chão de madeira da cômoda da mãe, no frio da noite de julho sem aquecedor, com o cheiro de sabonete de glicerina ao redor e as mãos quietas no colo, pensando que existe um tipo de amor que a gente não sabe que recebeu até o dia em que vai precisar guardar as coisas da pessoa e encontra, no fundo de uma gaveta, a prova escrita de que ela estava prestando atenção em tudo.
A mãe anotou. A mãe sempre anotou.
O que nos falta, às vezes, é a coragem de falar em voz alta o que a gente já sabe de cor.