O cheiro de cera de piso me lembrou alguma coisa antes de eu ver o rosto dele.
Aquele cheiro específico de cera antiga misturada com pó de talco e madeira velha que os salões de dança de bairro têm — entrei pela porta lateral do Centro Comunitário da Vila Castelo, em Campinas, e o cheiro chegou antes da música, antes das luzes amarelas, e me puxou de volta pra um lugar que eu tinha fechado com chave há muito tempo.
Fui a primeira coisa a notar. A segunda foi o homem de camisa xadrez verde que estava de costas na fila da secretaria.
As costas a gente reconhece de um jeito que o rosto às vezes não permite. A curvatura dos ombros, o jeito de cruzar os braços enquanto espera, um gesto pequeno com a cabeça quando ouve a própria voz — são marcas que ficam gravadas numa parte do cérebro que não pede licença pra ativar.
Parei no meio do corredor.
A mulher atrás de mim quase tropeçou no meu calcanhar.
— Desculpe — eu disse, sem me virar, sem tirar os olhos do homem de xadrez verde.
Ele assinou algum papel. Dobrou o recibo e enfiou no bolso da calça. Se virou.
Gilberto Alves Furtado. Sessenta e nove anos, duas a mais que eu, cabelo que era preto e agora era uma mistura de sal e pimenta que ficava melhor do que o preto ficava. Os mesmos óculos de aros finos que usava quando era moda usar óculos de aros finos, substituídos agora por armação que era do mesmo feitio mas mais larga. A barriga que ele não tinha antes e que estava ali agora sem pedir desculpas.
Me viu.
O que aconteceu no rosto dele foi rápido demais pra eu conseguir catalogar em ordem. Surpresa, sim. Depois alguma coisa que não era exatamente alegria mas era parente próximo dela. Depois um sorriso que começou do lado direito, como sempre começou, porque o lado esquerdo do rosto do Gilberto nunca foi tão ágil quanto o direito.
— Aparecida.
Não era pergunta. Era reconhecimento.
— Gilberto — eu disse, e minha voz saiu menor do que eu queria.
A mulher da secretaria olhava pra nós dois com o tipo de expressão de quem sente que alguma coisa importante está acontecendo mas não sabe bem o quê.
Ele caminhou até mim. Ficamos a um metro e meio um do outro, a distância que dois adultos mantêm quando ainda não sabem o que são um pro outro.
— Você vem aqui sempre? — ele perguntou, o que foi claramente a frase mais idiota possível diante das circunstâncias, e isso me fez sorrir de verdade.
— É minha primeira aula — eu disse. — Você?
— Também. Minha filha comprou pra mim de aniversário. Disse que eu precisava sair mais.
— A minha também — eu disse. — Nossas filhas combinaram sem saber.
Ele riu. O riso do Gilberto não mudou nada. É o tipo de riso que vem do diafragma, um pouco barulhento, sincero até a indiscrição.
Nos sentamos em cadeiras plásticas enquanto a professora — uma mulher de uns quarenta anos chamada Fátima, enérgica, com saia rodada roxa e paciência de santa — explicava os fundamentos do vals. Ficamos lado a lado sem combinar. Havia seis outros alunos, todos acima dos cinquenta e cinco, todos com aquele ar de gente que está fazendo alguma coisa que prometeu pra si mesmo há muito tempo e finalmente está cumprindo.
— Você mora aqui em Campinas? — ele perguntou enquanto Fátima demonstrava o passo básico no centro do salão.
— Mora desde noventa e dois. Você?
— Desde noventa e seis. Trabalhei em São José por um tempo antes.
Quarenta e três anos na mesma cidade, distância talvez de dez quilômetros entre nossas casas, e nunca tínhamos nos encontrado. O mundo é grande mesmo quando é pequeno.
Em mil novecentos e oitenta e três, eu tinha vinte e quatro anos e o Gilberto tinha vinte e seis, e nos namorávamos com toda a intensidade ingênua de quem acha que sentimento grande é o mesmo que amor duradouro. Fomos um ano e oito meses juntos, dançamos em todo baile de clube social que havia no bairro, brigamos sobre coisas que hoje nem consigo lembrar qual era a substância, e terminamos numa tarde de março com palavras que foram grandes demais pra voltarem atrás.
Eu me casei com o Cleber em oitenta e seis. Fui feliz, que é diferente de ser feliz o tempo todo, mas é feliz da mesma forma. Cleber morreu em dois mil e dezenove, infarto fulminante num sábado à tarde enquanto assistia futebol, e a ausência dele ainda me pega de surpresa às vezes, quando faço café pra dois por hábito ou quando vejo uma série que ele teria gostado.
Não perguntei ao Gilberto sobre a vida dele. Ainda não. A professora Fátima nos chamou pra tentar o passo básico.
— Vamos trabalhar em duplas — ela anunciou com a voz de quem não aceita negativa. — Vocês que já se conhecem, maravilhoso. Vocês que não se conhecem, melhor ainda. Dança é sobre confiar no parceiro.
Ela nos organizou em duplas. Gilberto e eu ficamos juntos sem que ninguém tivesse planejado isso, ou talvez a professora tenha intuído alguma coisa naquela corrente elétrica que havia entre nós.
— Você sabe que é um vals que a gente não terminou — ele disse enquanto colocava a mão na minha cintura com cuidado, como se eu fosse uma coisa que pudesse partir.
— Qual vals? — perguntei, fingindo não saber.
— No baile do Aníbal. Agosto de oitenta e dois. A gente brigou no meio da música e você foi embora antes de acabar.
Eu me lembrava.
Me lembrava do Aníbal, do salão coberto de papel crepom azul e prata, da discussão que havia começado sobre nada e virado tudo, e de mim mesma saindo pela porta lateral enquanto a orquestra ainda tocava.
— Você guardou isso por quarenta anos?
— Não guardei. Lembrei agora quando vi você entrar por uma porta lateral de novo.
A professora Fátima bateu palmas, a música começou, e o Gilberto me guiou com uma firmeza suave que ele não tinha quando tinha vinte e seis anos e que provavelmente a vida ensinou.
Erramos os passos várias vezes. Rimos. Ele pisou no meu pé uma vez e fez uma careta de constrangimento que era idêntica à que eu lembrava. Eu perdi a contagem do compasso e me apoiei no ombro dele por instinto, e ele não recuou.
No intervalo, ficamos na varanda estreita dos fundos com um copinho de água cada um.
— Você ficou viúvo? — perguntei, direta, porque sessenta e sete anos me deu a liberdade de ser direta.
— Em dois mil e vinte e um — ele disse. — A Marcia. Câncer. Oito meses da descoberta até o fim.
— Sinto muito.
— Também. — Ele olhou pro jardim minúsculo que havia nos fundos do centro comunitário, uma mangueira velha cercada de vasos de samambaia. — Foi muito tempo junto. Dezenove anos. Você aprende a viver sem, mas a ausência tem forma, sabe? Ocupa espaço físico mesmo não estando.
Entendi aquilo de um jeito que não precisei explicar em voz alta.
A segunda parte da aula foi bolero, que é ainda mais intimidador que vals porque é mais lento e a proximidade não tem onde se esconder. Ficamos quietos durante essa parte, concentrados nos pés, e o silêncio entre nós era do tipo que não pesa.
Quando a aula terminou, nos despedimos no estacionamento com uma hesitação que era honesta.
— A próxima aula é quinta-feira — ele disse.
— É — eu disse.
— Eu venho.
— Eu também.
Ele sorriu, o lado direito primeiro como sempre, e foi até o carro dele. Eu fui até o meu. Antes de ligar o motor, fiquei parada por um momento olhando pras mãos no volante.
Sessenta e sete anos. Filhos criados, netos chegando aos poucos, casa própria, vida que é boa mesmo quando dói. Não era a hora de querer alguma coisa romântica — ou talvez fosse exatamente essa a hora, porque com sessenta e sete anos você sabe o valor do que está à sua frente de um jeito que aos vinte e quatro você ainda não sabia.
Na quinta-feira, cheguei dez minutos antes.
Ele já estava lá.
Estava de camisa azul desta vez, encostado na parede perto da secretaria, e quando me viu endireitou a postura de um jeito que me fez rir ainda do estacionamento.
— Você chegou cedo — eu disse.
— Fui o primeiro — ele admitiu, sem vergonha.
Entramos juntos.
Desta vez, quando a professora Fátima colocou o vals e nos chamou pro centro, eu fui de boa vontade e sem fingir que não sabia de onde estava vindo. Gilberto pôs a mão na minha cintura. Eu pus a minha no ombro dele.
Começamos a dançar no compasso certo.
Às vezes não é sobre recomeçar. É sobre terminar o que ficou interrompido há quarenta anos numa porta lateral e que, por algum capricho bonito da vida, ainda estava esperando o fim.