O vestido estava no fundo do armário há mais de vinte anos, dobrado dentro de um saco plástico junto com outras roupas que eu guardava sem saber bem por quê. Era amarelo-girassol, com botões brancos na frente e uma barra que chegava abaixo do joelho. Tinha comprado numa liquidação em Franca, numa tarde de verão de 1987, e usado poucas vezes. Quando puxei o saco do armário naquela quinta-feira de maio, a primeira coisa que senti foi o cheiro de naftalina. A segunda coisa que senti foi uma dor no peito que quase me derrubou.
O Geraldo tinha descido pela terceira vez naquela semana.
Dona Cleonice, a proprietária da pensão, subiu até o nosso quarto com aquela feição desconfortável que as pessoas fazem quando não sabem o que dizer mas sabem que precisam dizer alguma coisa. Falou que o seu Geraldo estava na portaria de novo, pedindo pra alguém chamar a Beatriz. Que ele estava sentado na escadinha de tijolo vermelho, com as mãos no joelho, olhando para a rua como quem espera um ônibus que já deveria ter passado.
Beatriz. O nome que ele repetia.
Eu me chamo Conceição. Mas Beatriz era o nome dela — a moça por quem ele foi louco antes de me conhecer, nos anos sessenta, quando os dois tinham dezessete anos e moravam no mesmo bairro em Ribeirão Preto. Ele me contou essa história no terceiro mês de namoro, com uma leveza de quem já tinha deixado aquilo muito para trás. Disse que ela tinha ido embora com a família para São Paulo e que nunca mais se viram. Disse que foi o primeiro amor, desses que a gente carrega mas não pesa, porque a vida foi sendo boa depois.
Eu nunca senti ciúme de Beatriz. Até aquele dia.
O neurologista tinha dado o diagnóstico seis meses antes: Alzheimer moderado, com progressão que poderia ser mais rápida do que o esperado para a idade dele. Setenta e três anos, Geraldo. O homem que passou quarenta e um anos dormindo do meu lado, que chorou quando nasceu nossa filha Mariana e depois disse que não estava chorando, eram os olhos. O homem que todo domingo de manhã fazia café coado e assoviava aquela musiquinha do Agnaldo Timóteo enquanto esperava a água ferver. O homem que consertava tomada e tinha medo de avião. Esse homem agora descia as escadas da pensão todo dia às quatro da tarde achando que estava esperando uma namorada de 1963.
Fiquei um bom tempo parada na frente do armário aberto.
Depois vesti o vestido amarelo.
Tive que apertar um pouco os botões no meio, porque os anos foram sendo anos. Mas o vestido fechou. Me olhei no espelho pequeno em cima da cômoda — o mesmo espelho que o Geraldo usava para se barbear toda manhã, o mesmo que agora ele às vezes encarava sem reconhecer o próprio rosto. Não me reconheci também, por um segundo. Uma mulher de sessenta e oito anos com vestido de girassol e olhos vermelhos de tanto não chorar.
Ele estava na escadinha, exatamente como dona Cleonice tinha dito. Sentado no segundo degrau, com a camisa de linho bege que eu tinha passado naquela manhã com capricho de sempre, o cabelo branco penteado pra trás com aquele brilhantina que ele usava desde os quarenta. Quando me ouviu chegar, levantou os olhos — e o que vi neles foi uma coisa que não via há anos: expectativa pura, aquela que só existe quando a gente ainda não sabe se vai ser correspondido, quando o coração ainda está em aberto.
"Beatriz?" ele disse, mais como afirmação do que pergunta.
Eu respirei fundo.
"Oi, Geraldo."
Ele ficou de pé depressa, mais depressa do que eu esperava de um homem com artrite no joelho direito. Passou a mão no cabelo, que gesto bobo e lindo. Sorriu de um jeito que eu não via desde quando, sinceramente não sei dizer desde quando.
"Eu sabia que você ia vir", ele disse. "Eu sabia que você aparecia hoje."
Sentei no degrau ao lado dele. Não disse nada por um momento. A rua lá embaixo estava quieta para uma quinta-feira de tarde — uma perua estacionada na frente da banca, uma criança andando de bicicleta sem rodinhas no meio da calçada, tentando pela quarta vez sem cair. O sol de fim de tarde batia de lado, daquele jeito que alonga as sombras e deixa tudo com uma cor de mel escuro, quase de fotografia antiga.
"Como foi seu dia?" eu perguntei.
E ele me contou. Me contou sobre um professor de matemática que dava aula no colégio perto de casa e que gostava de usar ternos xadrez e cheirava a talco. Me contou sobre um cachorro vira-lata amarelado que costumava dormir na esquina de uma farmácia e que ele às vezes trazia um osso escondido no bolso da marmita de trabalho. Me contou sobre um time de futebol de várzea que ele jogava aos sábados, num campo com grama rala, onde o goleiro era vesgo e mesmo assim defendia quase tudo. Histórias que eu nunca tinha ouvido, da vida dele antes de mim, contadas com uma clareza que me comoveu e me partiu ao mesmo tempo. A memória dele funcionava em camadas: o mais antigo estava intacto, preservado como fruta em calda. Sou eu que estou sumindo, que estou sendo varrida de dentro da cabeça dele. Sou eu.
Quando a tarde esfriou e uma brisa de junho começou a fazer o Geraldo cruzar os braços no peito, me levantei e estendi a mão para ele.
"Vamos subir? Está ficando frio."
Ele pegou minha mão. Dedos compridos, pele seca de quem trabalhou a vida inteira com as mãos, a aliança que ele usa desde 3 de abril de 1979 — nosso casamento na Igreja Nossa Senhora do Carmo — que ele não tira nem para dormir, nunca. Ele não sabe mais o que essa aliança significa. Mas ele a usa.
Subimos juntos. Na escada ele perguntou o meu nome de novo, e eu disse "Conceição", e ele ficou um momento pensativo, como quem procura numa gaveta uma coisa que sabe que existe mas não acha. Então disse que era um nome muito bonito, que combinava comigo. Perguntou se eu morava aqui perto, nesse prédio. Disse que sim, que morava aqui mesmo, no terceiro andar, o quarto de janela para a rua.
"Que coincidência boa", ele disse, e havia um sorriso pequeno no canto da boca.
Deitei ao lado dele naquela noite e fiquei olhando para o teto até ele pegar no sono. Ouvi a respiração dele ficar mais funda, mais regular. Pus a mão no peito dele e senti o coração batendo devagar, constante, sem pressa — esse coração que conheço tão bem que reconheceria no escuro.
Pensei na Beatriz. Não com raiva. Não com tristeza, ou pelo menos não com a tristeza que eu esperava. Com uma gratidão estranha, quase absurda, do tipo que a gente sente em situações que não pedem gratidão nenhuma.
Porque foi por causa dela — por causa do nome dela na boca do Geraldo, por causa do vestido amarelo que puxei de dentro de um saco plástico com cheiro de naftalina — que eu entendi o que o amor realmente pede da gente. Não pede que a outra pessoa lembre de você. Pede que você continue aparecendo, de vestido amarelo, na escadinha de tijolo, às quatro da tarde — mesmo que ela precise se apaixonar de novo a cada dia.
Na manhã seguinte passei o vestido com cuidado e pendurei na parte da frente do armário, onde ele seria a primeira coisa que eu veria ao acordar.
Ele estava lá quando o Geraldo abriu os olhos devagar e perguntou, com aquela voz grossa de quem acabou de voltar do sono profundo, que dia era hoje.
"Sexta-feira", eu disse.
"Ah." Ficou um momento quieto, olhando para o teto. "Você vai sair mais tarde?"
"Sim", eu disse. "Às quatro."
Ele assentiu com a cabeça, satisfeito com essa resposta, como se fosse a coisa mais natural do mundo, como se soubesse exatamente de que saída se tratava e por que ela importava.
Às quatro em ponto desci a escada. Ele estava na escadinha, com a camisa de linho — outra, azul-clara desta vez, que eu tinha separado de manhã — e o cabelo branco penteado pra trás com brilhantina.
Quando me viu chegar, levantou de um salto.
"Beatriz", ele disse, e o nome saiu com tanto calor e alívio que eu quase respondi que sim, que era eu, que sempre fui eu, desde o princípio.
"Oi, Geraldo."
Sentei ao lado dele no degrau de tijolo vermelho. O sol de fim de tarde bateu de lado. A criança da bicicleta estava lá de novo, tentando de novo, e desta vez ela conseguiu — atravessou a calçada inteira sem cair, e nem percebeu que eu estava olhando e torcia por ela.
E ele começou a me contar, de novo, com a mesma voz animada e os mesmos gestos das mãos, sobre o professor de ternos xadrez e o cachorro amarelado da esquina — histórias que eu já sei de cor, que guardo agora como se fossem minhas, porque não tem mais ninguém no mundo que as guarde por ele.
Escutei tudo, sem pressa, sem interromper.
O amor não é uma memória que a gente conserva. É uma escolha que a gente refaz, todo dia, enquanto as pernas aguentam descer a escada.